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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

.cão-salsicha ou cão salsicha?


O salsicha (teckel) é considerado num estudo “o cão mais feroz do mundo”. Leia AQUI.

Numa pergunta publicada hoje no Ciberdúvidas, um consulente queria saber os femininos de várias raças: são-bernardo, rafeiro-alentejano, serra-da-estrela e cão-d’água. Extrato da resposta: “Convém, no entanto, precisar o seguinte: com exceção do «são-bernardo», julgo que nenhuma das outras raças elencadas pelo estimado consulente é comummente grafada com hífen, sendo que, no caso dos «rafeiros alentejanos», será ainda de notar que a nomenclatura usada parece frequentemente variar entre a já referida e «rafeiro do Alentejo». (…) Pedro Mateus:: 29/10/2012
Tenho por Pedro Mateus a maior das considerações, mas não estou de acordo com o que diz. Passo a explicar porquê.
A. O nº 3 da Base XV do Novo Acordo Ortográfico estabelece: “Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento: abóbora-menina, couve-flor, erva-doce, feijão-verde; bênção-de-deus, erva-do-chá, ervilha-de-cheiro, fava-de-santo-inácio, bem-me-quer (nome de planta que também se dá à margarida e ao malmequer); andorinha-grande, cobra-capelo, formiga-branca; andorinha-do-mar, cobra-d'água, lesma-de-conchinha; bem-te-vi (nome de um pássaro).
Não havendo a referência a qualquer exceção (ao contrário do que acontece, por exemplo, no nº 6 da mesma Base XV, em relação às locuções), os compostos que designam espécies botânicas e zoológicas devem ser todos hifenizados? Se os objetivos do NAO são unificar e simplicar o uso da língua portuguesa, a resposta só pode ser sim.
 B. Encontrei, também no Ciberdúvidas, uma pergunta/resposta sobre o mesmo assunto. Transcrevo dois extratos.
Pergunta - “Gostaria de saber se, segundo a norma culta, a raça canina se escreve "perdigueiro-português" ou "perdigueiro português".
Resposta – “A respeito do nome em questão, não encontro registos lexicográficos, mas suponho que as tendências atrás indicadas também eram aplicáveis: perdigueiro-português, em Portugal, e perdigueiro português no Brasil.
O AO 1990 unifica estes casos, porque determina que em compostos que designam espécies botânicas e zoológicas se use sempre o hífen (Base XV, 3.º): donde, perdigueiro-português. Carlos Rocha:: 09/06/2010
Esta unificação a que alude Carlos Rocha confirma a ideia de que tem de haver sempre hífen neste tipo de compostos.
C. A aplicação desta regra é um dos elos mais fracos do Novo Acordo Ortográfico. A regra é boa e ajuda os utentes da língua, mas os dicionários e o Portal da Língua Portuguesa não a seguem com rigor. Provas? Ei-las nesta amostra, muito reduzida, mas significativa:
 
Hifenizado?
Raças de cães
Portal da Língua Portuguesa
Porto Editora
Priberam
São-bernardo
Sim
Sim
Sim
Rafeiro-alentejano*1
Não
Não
Não
Serra-da-estrela
Sim
Não
Não
Cão-d’água*1
Não
Sim
Não
Cão-salsicha
Não
Sim
Não
*1 O VOLP da Academia Brasileira de Letras regista cão-do-alentejo e cão-dágua.

NOTA FINAL:
Em relação às entradas de espécies botânicas e zoológicas, há um fosso imenso entre o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), em Portugal, e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), no Brasil. Considerando o tal objetivo de unificação do Novo Acordo, é incompreensível esta disparidade. Alguns exemplos:
1. Quanto à pimenta, enquanto no VOLP há 59 compostos, cá... apenas 7. A branca, a de caiena, a rosa ou a verde não são espécies? Para o Portal da Língua Portuguesa, não.
2. No feijão, outra goleada. Lá: 194; cá: 12. Mas, na lista nacional, não há feijão-branco, feijão-preto, feijão-ervilheiro ou feijão-encarnado, tudo espécies cultivadas e consumidas em Portugal.
3. Finalmente, o interessantíssimo caso do badejo. No VOP, não há escolha: apenas… badejo. Já no VOLP, há muito por onde escolher. Embora no Brasil haja apenas seis, é-nos apresentada uma lista com 17 espécies: badejo-alto, badejo-bicudo, badejo-branco, badejo-da-areia, badejo-da-pedra, badejo-de-lista, badejo-ferro, badejo-fogo, badejo-mira, badejo-padre, badejo-pintado, badejo-preto, badejo-quadrado, badejo-sabão, badejo-saltão, badejo-sangue e badejo-sapateiro.

Temos por cá, na Madeira, o badejo-amarelo, que o VOP desconhece… Imagem obtida AQUI.

CONCLUSÃO:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
cão-salsicha

Abraço.
AP
P.s.
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.pt:
Língua viva: ferryboat, ferribote ou tanto faz?

4 comentários:

  1. Muito legal o BLOG
    Já estou seguindo

    Um beijo,
    suavemalicia.blogspot.com.br

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    1. Obrigado, Aline.
      Beijo para si também.
      AP

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  2. Em primeiro lugar, gosto bastante deste blogue.
    Estou neste momento a tentar encontrar alguma norma em relação à forma de escrever o nome das raças de cães em Português, mas está difícil. A dúvida não se coloca em relação ao hífen (que, muito sinceramente, ainda não vi ninguém utilizar em Medicina Veterinária), mas sim em relação às palavras propriamente ditas. Por exemplo, Bouledogue Francês vs. Buldogue Francês. A primeira forma é a que surge nos registos do Clube Português de Canicultura, que no entanto regista "Bulldog Inglês". "Bouledogue Francês" é também a forma utilizada no preenchimento do registo no Sistema de Identificação e Recuperação Animal (SIRA). Também não percebo o porquê de se escrever Retriever do Labrador (em vez de Labrador Retriever) e não se escrever Retriever da Baía de Chesapeake (em vez de Chesapeake Bay Retriever). A incoerência é flagrante. E são apenas dois exemplos. Gostava, realmente, de ver isto esclarecido.
    Entretanto, em relação ao que li aqui no blogue a propósito de "espécies botânicas e zoológicas", sinto-me obrigada a fazer uma nota. É que "raça" é diferente de "espécie". A título de exemplo, globalmente os vários "badejos" que aí aparecem são nomes de uso comum para espécies distintas. Com o cão não é isso que se passa. Se calhar é só um pormenor.

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    1. Cara Joana:
      Em primeiro lugar, ainda bem que gosta do trabalho que vou partilhando aqui no blogue.;)
      Começando pelo último parágrafo do seu comentário, tem razão na distinção que faz entre "raça" e "espécie". Neste aspeto, o AO90 é pouco rigoroso. No entanto, o entendimento dos especialistas é que, quando se diz "espécies", está tudo incluído: subespécies, raças, fungos, etc.
      Quanto às incoerências que refere, o assunto é espinhoso, mas vou tentar ajudá-la com uma pesquisa nas principais fontes de referência. Entretanto, peça-me amizade no Facebook e falamos lá e dou-lhe o meu email em mensagem privada:
      https://www.facebook.com/pelalinguaportuguesa
      Abraço.

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