Trago-vos hoje uma abordagem mais técnica e menos emotiva de questões relacionadas com a AO. Transcrevo, a seguir, um texto de D' Silvas Filho sobre casos especiais do Novo Acordo.
Bom final de domingo para todos!
Abraço.AP
Novo acordo, casos especiais
(Artigo publicado pelo Autor em
Ciberdúvidas, em 2009-02-19, com o título «Sobre algumas dúvidas de interpretação
do novo Acordo ortográfico»)
Surgiram ultimamente algumas dúvidas de
interpretação do acordo. Indico a seguir qual a minha posição particular nesses
casos especiais. Como acentuo sempre, não pretendo fazer lei com as minhas
opiniões, mas transmitir um parecer, que, na dúvida, é para mim mais sensato.
1.
Primeiramente, sublinha-se que a Academia Brasileira de Letras (ABL) é
taxativa: «A tradição é um dos princípios do acordo de 1990». Nesta base,
considero também que a tradição lexicográfica, habitual nos vocabulários
oficiais ainda em vigor, nunca pode ser inteiramente esquecida. A história das
palavras faz parte do nosso património linguístico.
Lembra-se que o projecto de 1986, que
pretendia unificar a língua (unificava 99,5% do vocabulário geral), foi
recusado por ser excessivamente inovador (ex.: acabava com os acentos nas
esdrúxulas e, logo, acabavam as diferenças entre o PE e o PB em palavras como
António/Antônio, efémero/efêmero, etc. [em Portugal, nessa altura assustou
muito a utilização da palavra cágado sem acento…, mas havia problemas de
possível retorno da grafia sobre a fonia, como na palavra *bemaventurado]).
Então, os linguistas dos dois países (nunca
desistindo louvavelmente de conseguirem um dicionário único para a língua
portuguesa, como têm outras línguas importantes) adoptaram para o acordo de
1990 uma política mais conservadora («uma versão menos forte»), para assim
garantirem que uma grafia única tivesse maior possibilidade de ser aprovada.
Neste espírito de se conservar a tradição,
quando não há indicações de mudança taxativa no texto do novo AO, a tendência é
manter-se a grafia anterior. Acrescento: quando há dúvida e enquanto não houver
um Vocabulário Comum oficial…
2. Co-herdeiro e coerdeiro
Não faz qualquer sentido mudar co-herdeiro
para coerdeiro. A desculpa é a obs. de b) da Base XVI, que manda aglutinar co-
sempre. Para não se contrariar a alínea a) da mesma Base, que obriga ao hífen,
por herdeiro ter h, tende-se a aplicar o 2.º da Base II, suprimindo o h. Esta
inovação contraria o ponto 1 desta nota. Aliás, na citada alínea a) da Base XVI
está taxativamente escrito no texto do novo AO: co-herdeiro. Uma grafia
coerdeiro não só violenta o ponto 1, como violenta o próprio texto do acordo.
Ora este não pode ser alterado sem um novo Acordo de todos os signatários. Se
os brasileiros querem adoptar coerdeiro façam-no como dupla grafia. Não vejo
que Portugal possa ser obrigado a esta inovação. Note-se que se existe
coabitar, a perda do h já estratificou nesta palavra há muito tempo (ex.:
Rebelo Gonçalves [RG], 1967). As palavras co-herdeiro e co-herdar aparecem com
hífen em todas as publicações portuguesas sobre o novo AO, que conheço.
3. Prefixos re-,
pre-, pro-
A dúvida derivou da aplicação de b) da Base
XVI, que manda separar por hífen o prefixo que termina na mesma vogal em que o
segundo elemento começa. Neste caso, no meu ponto de vista, respeita-se o ponto
1 desta nota. Consta que Evanildo Bechara, da ABL (um linguista que muito
admiro pelas impressões que trocámos há tempos) é taxativo neste ponto: «Se o
Acordo quisesse contrariar a tradição, tê-lo-ia indicado». Para o Brasil, tenho
informações de que a ABL adoptará: reeleição reeditar. No mesmo espírito,
portanto, será: reedição, reeducação, reentrar, reenviar, reexpedir, etc., como
até aqui, de longa data (RG). Da mesma maneira, penso que deverão ser:
preeminente, preencher, preexistir, etc. como até aqui, de longa data (RG).
Note-se que com o prefixo re- estão a
aparecer e são defendidas grafias para o novo AO com hífen quando o segundo
elemento começa com e. Não foi esse o critério do Dicionário da Porto Editora,
com que eu concordo. Se Portugal adoptar a grafia com hífen, não terei outro
remédio senão seguir a variante brasileira, depois legítima no universo da
língua.
Quanto ao prefixo pre-, não encontrei propostas com hífen para
o prefixo átono seguido de e. Este facto torna ainda mais incoerente e insustentável
a ideia de re- com hífen.
Convém aqui fazer um reparo. Os prefixos
pre-, pro- (e pos), quando separados por hífen são tónicos, com acento gráfico:
pré-, pró- (e pós-). Acontece que, com o uso, alguns destes prefixos tendem a
ficar fundidos com o elemento seguinte, deixando de ser tónicos (prever,
proclamar [pospor]). Em Portugal, normalmente a prosódia do prefixo também
muda; no entanto, enquanto essa mudança não entra nos hábitos linguísticos há
alguma indefinição. É o caso, por exemplo, de proactivo, já em Houaiss na norma
actual (nalguns dicionários ainda pró-activo). Então, na fase de transição a
pronúncia com vogal aberta tende a fazer-se como se o prefixo ainda fosse
tónico. É uma indefinição que poderá levantar problemas na aplicação desta
Base.
Mas há mais problemas nesta Base. A alínea
b) do 2.º traz o risco também de retorno da grafia sobre a fonia. Por exemplo,
a palavra intraocular no novo AO, pode ser eventualmente pronunciada ¦tràu¦ e não ¦trà-ò¦.