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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O AO90 “mexe” na crase?

A palavra crase vem do grego krásis, significando «mistura”, “contração».
É esse o sentido que a palavra assume na gramática: fusão de duas vogais numa só. Mais exatamente, resulta da junção da preposição a com:
a)  Os artigos definidos a/as;
b)   As iniciais dos pronomes demonstrativos aquela/aquelas, aquele/ aqueles e aquilo e dos pronomes relativos a qual/as quais.
Exemplos: “Fomos às compras”; “Vamos àquele bar?”

Desde 1973 (1971 no Brasil), data em que foram abolidos os acentos graves dos diminutivos –inho/a (“avòzinha”) e –ito (“pèzito”) e dos advérbios em –mente (“sòmente”), não há alterações no acento grave (`).
Atualmente, todas as situações em que usamos esse acento se devem a crases.

CONCLUSÃO:
O AO90 não introduziu qualquer alteração nos casos de crase.
Nota: No Brasil, com a abertura da pronúncia da letra a, é comum acentuar erradamente em situações em que não há crase.
Exemplo: "Você foi promovido a padrinho." Temos a preposição a, mas não há nenhuma das classes de palavras referidas em a) e b), pelo que não é permitido o uso do acento.

Abraço apertado como uma crase!
AP
Imagem encontrada AQUI.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Com o AO90, mantém-se o hífen à esquerda na mudança de linha?

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1. Muita gente desconhece que, segundo o AO45, quando se partia uma palavra e havia um hífen no final da linha, podíamos repetir esse hífen no início da linha seguinte, mas NÃO ERA OBRIGATÓRIO fazê-lo.
AO de 1945, Base XLIII, nº 6:
Quando se tem de partir uma palavra composta ou uma combinação de palavras em que há um hífen, ou mais, e a partição coincide com o final de um dos elementos ou membros, pode, por clareza gráfica, repetir-se o hífen no início da linha imediata: ex-||-alferes, mão-||-de-obra ou mão-de-||-obra, serená-||-los-emos ou serená-los-||-emos, sub-||-rogar, vice-||-almirante.
Nota: Como a Base XV do FO43 (Divisão Silábica) é omissa em relação à partição de palavras, não sei qual era a regra seguida na norma brasileira.

2. Com o AO90, a repetição do hífen PASSOU A SER OBRIGATÓRIA. A Base XX, nº 6 não deixa dúvidas:
Na translineação de uma palavra composta ou de uma combinação de palavras em que há um hífen ou mais, se a partição coincide com o final de um dos elementos ou membros, deve, por clareza gráfica, repetir-se o hífen no início da linha imediata: ex- -alferes, serená- -los-emos ou serená-los- -emos, vice- -almirante.

Com ou sem hífen, um bom fim de semana!
AP

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pai Natal OU pai natal?


1. Tanto o Formulário Ortográfico de 1943 (Brasil) como o AO45 (Portugal) são omissos em relação ao uso de maiúscula/minúscula. No entanto, o mais comum era vermos a grafia Pai Natal.
Goste-se ou não do AO90, neste caso, ele dá-nos uma regra clara:
Base XIX - 2  A letra maiúscula inicial é usada: (…)
c) Nos nomes de seres antropomorfizados ou mitológicos: Adamastor; Neptuno/ Netuno.
2. Não há consenso em relação à classe de palavras em que devemos incluir o Natal de Pai Natal. Enquanto para uns (Dicionário da Academia das Ciências e o Portal da Língua Portuguesa) é um adjetivo, para  outros (como a Infopédia) é um nome.
3. No Brasil, o Pai Natal dá lugar ao Papai Noel. Se os dicionários Aulete e Michaelis não o fazem, já o VOLP da Academia Brasileira de Letras regista a designação como substantivo, com hífen (Papai-Noel), tratando-o como um composto com unidade semântica sem elementos de ligação (como em abelha-mestra, por exemplo). Embora seja a única fonte das que consultei que segue este caminho, tem lógica a opção.

CONCLUSÕES:
PORTUGAL
BRASIL
Pai Natal
Papai-Noel  (perspetiva da ABL)
1.Tratando-se de uma pessoa vestida como tal (ou um de objeto a representá-lo), deve usar-se minúscula: pai natal/papai-noel.
2. A forma correta de formar o plural é pais natais/papais-noéis.

Abraço.
AP

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

ano novo ou Ano Novo?


A. Em Portugal, segundo o AO45, escrevíamos com maiúscula ou minúscula, em função do sentido.
B. No Brasil, era sempre com minúscula, conforme determinava a secção XVI, artigo 10º, do Formulário Ortográfico de 1943: “Os nomes das festas pagãs ou populares escrevem-se com inicial minúscula: carnaval, entrudo, saturnais, etc.

CONCLUSÕES:
  Segundo o AO90
PORTUGAL e BRASIL
1. Falando das festividades do 1º dia do ano, maiúscula
Hoje é dia de Ano Novo. (Ano-Novo no Brasil*1)
 
2. Se nos referirmos ao ano inteiro, contrastando com o "ano velho", minúscula:
Feliz ano novo! (= Feliz 2014)!
*1: Os dicionários brasileiros oscilam entre as grafias ano novo e ano-novo. O VOLP da Academia Brasileira de Letras opta pela hifenização, classificando a expressão como substantivo masculino. 
Fontes: FO43, AO45, AO90 e Ciberdúvidas.
 
Abraço e… bom ano para todos!
AP
Nota: O nº 2. f) da Base XIX do AO é clara: “A letra maiúscula inicial é usada (…) Nos nomes de festas e festividades: Natal, Páscoa, Ramadão, Todos os Santos.
Imagem encontrada AQUI.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

.O AO90 deturpa a língua portuguesa?

.

O artigo de hoje vem na sequência da mensagem que uma leitora brasileira me deixou na caixa de comentários:
Olá António,
Infelizente esse AO deturpou a língua de Camões. As palavras com derivativos não deveriam perder as consoantes. Exemplo: Egipto > egípcio , secção > seccional etc.

1. A língua portuguesa já sofreu inúmeras “deturpações” desde a época de Camões…

2. A questão de mantermos ou não as consoantes mudas conduz-nos ao confronto pronúncia-etimologia, que não é de agora.
2.1.      A reforma de 1911 em Portugal (adotada no Brasil cerca de 20 anos depois) seguiu a via da simplificação, levando à queda de um elevado número de consoantes não pronunciadas: sciencia > ciência (latim: scentia-); prompto > pronto (latim: promptu-);  dipthongo > ditongo (latim: dipthongu-).
2.2.      O Formulário Ortográfico de 1943 (apenas aplicado no Brasil) ainda foi mais longe: óptimo > ótimo  (latim: optimu-); excepto > exceto (latim: exceptu-);  director >  diretor (latim: directore); acção > ação (latim: actione), etc.

Quanto a haver palavras da mesma família com grafias diferentes, também não é uma situação nova na língua. Já escrevíamos, por exemplo, dicionário  (latim: dictionariu-) e dicção, chama (latim: flamma-) e flamejante, joelho (latim: genuc(u)lu ) e genuflexão, assunção (latim: assumptione-) e assumptivo, etc. 
As histórias da evolução da língua e das reformas ortográficas (por vezes forçadas e determinadas por razões políticas) são complexas .
Tínhamos uma língua perfeita, lógica e respeitadora da etimologia até há pouco tempo e foi o AO que veio deturpá-la? A história da língua portuguesa mostra que não é assim.
Como já referi, a oficialização da “deturpação” tem mais de 100 anos e se quisermos recuar ainda mais no tempo, quase podemos dizer que ela vem do século III A. C. quando os Romanos invadem a Península Ibérica e disseminam o seu latim vulgar, bem popular e “deturpado”…
Claro que os movimentos e opiniões anti ou pró-AO são legítimos. No entanto, a melhor legitimação está no rigor dos argumentos escolhidos. E há boas razões para se ser contra ou a favor do AO90! Lamentavelmente, encontramos, em ambos os lados, justificações pouco recomendáveis: robustas na emoção, mas bem fraquitas na consistência…

Seja contra ou a favor o AO, desejo-lhe uma entrada promissora em 2014!
António Pereira
P.s. Nada impede a Eliane de continuar a escrever secção e seccional, uma vez que há uma dupla grafia no Brasil (que já existia antes do AO).

Imagem encontrada AQUI.

domingo, 29 de dezembro de 2013

.Quem matou o DIPTHONGO?



Segundo os linguistas, a língua que falamos é um fator de unidade. Mas também pode ser uma fonte de mal-entendidos...
O AO90, criado para simplificar e unir, transformou-se na gasolina que tem alimentado a fogueira de paixões que nos tem dividido entre os “pró” os “contra” e os “assim-assim”, que é o meu caso.

A. Esta nova realidade linguística tem gerado opiniões e movimentos para todos os gostos.
Para alguns (no Brasil) ficou-se aquém do que era desejável; por cá, foi-se além do que era admissível.
Para uns, é tudo ilegal, o AO não está em vigor, não senhor! Para outros, está em vigor, mas não devia estar. E há ainda os que, discretamente, vão dizendo que está mesmo em vigor e muito bem!
 
B. 1. E surgiram, como cogumelos, os grupos dos amigos:
.Os amigos dos “cês” e dos “pês” que, mesmo mudos, coitadinhos, sempre fizeram parte da família e têm direito à vida. Foi-se o “p” de “Egito”, deixando estupefactos os que o que o pronunciam, mas ficou em “egípcio”...
.Os amigos do “cágado”, como o juiz Rui Teixeira, que sonhou que iam tirar o acento ao animal, coisa que qualquer pessoa minimamente asseada não pode admitir;
.Os amigos do Lince, como Vasco da Graça Moura, que mandou retirá-lo de todos os computadores do CCB. Que jeito tinha estar o animal ali fechado 24 sobre 24, como diria a Teresa Guilherme?
.Os amigos do trema (no Brasil). Sem aqueles olhinhos (¨) sobre o “u” da linguiça, o churrasquinho já não será a mesma coisa…
.Os amigos do “tecto”. Retirar o “c”, mesmo mudo, é inaceitável e conduzirá ao impensável: o “teto”, que, mais tarde ou mais cedo, será pronunciado à tia: “têto”, uma espécie de marido da “teta”…

B. 2. A lista dos amigos já vem de 1911:
.Os amigos do “ph”:
-Fernando Pessoa, contra tudo e contra todos, continuou a escrever “philosophia” e “phosphoro”; 
-o linguista Alexandre Fontes afligia-se com a ideia de escrever “fase” em vez de “phase” e dizia, incomodado: “parece-nos um esqueleto”.
.Entre os amigos do “y”, estiveram Fernando Pessoa (para quem o “y” de “cysne” fazia lembrar o longo pescoço do animal) e Teixeira de Pascoaes que achava que:
-substituir o “y” por “i” em “lagryma” quebrava a harmonia da palavra e era uma ofensa à estética;
-escrever “abysmo” com “i” latino era retirar-lhe profundidade e transformá-lo numa superfície banal.

E o” dipthongo“?
Perdeu-se para sempre, triste e sozinho, sem amigos nem defensores.
Não se compreende! De boas famílias (do grego díphthoggos, «que tem dois sons», pelo latim diphthongu-), estava ele, lindo e posto em sossego, em 1911, quando, de repente, veio o Formulário Ortográfico… e comeu-o! Mais exatamente, comeu-lhe um “p” e um “h”, transformando-o no ditongo que temos hoje. Desfigurado para sempre, continua a prestar bons serviços à fonética e à ortografia…

Poderia ainda falar-vos do tritongo, mas chega de histórias tristes e de mutilações...
Bom 2014 pra todos!
António Pereira
Imagem encontrada AQUI.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

.pé-de-galinha OU pé de galinha?


Estes são os únicos pés-de-galinha que mantiveram os hífenes...
(Imagem encontrada AQUI)
 
Surgindo ao caro leitor a dúvida que dá o título ao artigo de hoje, o mais natural é esclarecê-la consultando um dicionário. Se o fizer, o que vai encontrar? Isto:
Infopédia
  Priberam
Vocabulário do Portal da Língua Portuguesa Vocabulário da Academia Brasileira de Letras
  pé de galinha
  pé-de-galinha
pé-de-galinha e pé de galinha
pé-de-galinha e pé de galinha
 
 
Em vez de esclarecimento, obtemos um punhado de divergências aparentemente inconciliáveis. Como vamos ver no quadro seguinte, embora o AO90 tenha introduzido alterações, já existiam duas grafias.
SENTIDOS
AO45 (PORTUGAL) e FO43 (BRASIL)
AO90 (PORT e BR)
Designando a pata do animal
pé de galinha
pé de galinha
Ruga (mais usado no plural)
pé-de-galinha
pé de galinha
Estrutura de betão, com quatro pés, geralmente usada como quebra-mar
pé-de-galinha
pé de galinha
Erva daninha
pé-de-galinha
pé-de-galinha
 
 
CONCLUSÃO:
Com o AO90, na generalidade das situações, devemos escrever pé de galinha, só havendo hífen quando designamos a espécie botânica.
Nota: Enquanto a Infopédia ignora a espécie botânica e o dicionário Priberam faz uma aplicação inadequada do AO, os vocabulários do Portal da Língua Portuguesa e da Academia Brasileira de Letras dão-nos a informação correta.
 
Abraço.
AP