Oficialmente, o AO90 muda 1,6% das palavras (0,5% no Brasil) e quer SIMPLIFICAR A LÍNGUA e CRIAR UMA ÚNICA NORMA PARA A SUA REGULAMENTAÇÃO. Justifica-se uma revisão do texto, expurgando-o de ambiguidades e incoerências, e sobretudo que Portugal e Brasil convirjam a 100% na interpretação das regras. Mais do que ser anti ou pró-AO, este é um espaço informativo crítico. Abraço e boa escrita para todos os lusofalantes! António Pereira, Brejos de Azeitão, a 30 km de Lisboa.
Mais um caso de
hifenização infernizada! Embora o AO90 tenha introduzido um bom número de alterações
nas regras de uso do hífen, neste caso, nada mudou. A “complicação” já vem
das reformas de 1943 (Brasil) e de 1945 (Portugal).
Em Portugal e no
Brasil, tanto BEM
HAJAcomo BEM-HAJA podem ser usados, mas
em contextos diferentes.
REGRA:
BEM HAJA!(exclamação)
BEM-HAJA(nome*masculino)
Exprime gratidão
ou reconhecimento, equivalente a “obrigado!”
No dia que ocorreu,
na cidade de Portimão, a Mamamaratona
(como um alerta contra o cancro da mama), trago à vossa consideração uma
questão linguística: está correta a grafia “MiniMamamaratona” usada
pela Associação de Atletismo do Algarve, uma das organizadoras do evento? Ou
deveríamos optar por “Mini-mamamaratona”
ou mesmo “Minimamamaratona”?
Aplicando ao
elemento de formação de palavras mini-
as regras de hifenização, o AO90 determina que, salvo alguns casos especiais,
só há hífen quando o segundo elemento começa por h ou pela mesma letra com que termina o prefixo.
Concluímos que a
grafia correta seria… Minimamamaratona.
Andou mal a
Associação de Atletismo do Algarve, sobretudo porque, neste caso, o AO manteve
as regras que aplicávamos com o Formulário Ortográfico de 1943 (Brasil) e com o
Acordo Ortográfico de 1945 (Portugal).
Mais importante do
que a falha linguística é o evento ter sido um sucesso!
O "replente" até dói! Quanto ao "anti-nódoas", vamos ver...
É frequente
encontrarmos oscilações, sobretudo nos anúncios de detergentes, entre as grafias
“anti-nódoas” e “antinódoas”.
Como veremos no
quadro seguinte, as dúvidas na aplicação das regras do hífen no caso de hoje
nada têm a ver com o AO90. Trata-se de um desconhecimento que vem de longe…
Neste caso, o AO90
nada altera em relação às regras anteriormente em vigor e determina, na Base
XV, nº 1:
“Emprega-se o hífen
nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e
cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem
uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o
caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arcebispo-bispo,
arco-íris, decreto-lei (..); conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.”
Conclusão:
Sendo um
composto verbo+nome com unidade de sentido (como conta-gotas, finca-pé e
guarda-chuva), continuamos a escrever… salva-vidas!
A implantação do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa (AO) foi defendida hoje por um académico, um historiador e um linguista brasileiros, que rejeitaram o projeto de simplificação do idioma, analisado pelo Senado brasileiro, durante um debate em São Paulo.
O debate ocorreu na 23.ª Bienal Internacional do Livro e contou com a participação do gramaticista e membro da Academia Brasileira de Letras Evanildo Bechara, do linguista e coordenador da comissão brasileira no Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) Carlos Alberto Faraco, e do historiador Jaime Pinsky.
Faraco criticou o adiamento do prazo para a obrigatoriedade de alicação do AO no Brasil, de janeiro de 2013 para janeiro de 2016, e defendeu a integridade do documento, ou seja, que o acordo não sofra alterações.
O projeto de simplificação do idioma tem sido defendido por linguistas brasileiros, liderados por Ernani Pimentel, e está em análise na Comissão de Educação do Senado brasileiro.
A proposta, que já foi apresentada em Portugal e em África, prevê a adoção de uma nova ortografia que suprima, por exemplo, a letra "H" não pronunciada e mude as atuais regras de uso do "g" e do "j".
"O que se propõe é vandalismo ortográfico", afirmou Faraco. "Não há fundamentação técnica ou razão social, cultural e económica para mexer numa ortografia estabilizada", afirmou Faraco, para quem a escrita fonética (aquela que segue o som das palavras) seria um "descalabro" e o "fim da ortografia".
O historiador Jaime Pinsky citou um artigo que escreveu para o jornal Correio Brasiliense, em maio. No texto, problematiza a questão dos sotaques regionais que, no caso de uma escrita fonética, causaria confusão na grafia das palavras - o mês de abril, por exemplo, é pronunciado "abriu" ou até "abrir" em diferentes localidades brasileiras.
"É ridícula a ideia de escrever como se fala. A língua tem fatores de caráter históricos, que não podem ser desconsiderados", disse.
O académico Evanildo Bechara lembrou que a opção por uma escrita fonética em português já foi rejeitada no século XIX, quando foi proposta, e realçou que a língua tem princípios culturais e sociais. "Há de se trabalhar para que a coletividade escreva [o português] de uma maneira única, mas quem deve propor [as regras] são os técnicos, as academias e as universidades", afirmou.
Bechara disse também que não concorda com todas as regras do AO, e que ele necessita de algumas adaptações, mas que serão feitas com o tempo.
Faraco usou como exemplo a falta de padronização para as palavras provenientes do idioma banto, em África, mas que essas questões poderão ser resolvidas localmente, como fez Moçambique ao incluir vocabulário dessa língua, nas normas ortográficas.
O Acordo Ortográfico começou a ser negociado em 1975, foi assinado em 1990 pelos oito países de língua oficial portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) e ratificado por seis deles, com exceção de Angola e Moçambique.
Como Bechara, não concordo com todas as regras do AO (como a que regula o uso de maiúsculas e minúscula nos pontos cardeais) e também acho que ele necessita de algumas adaptações (como em certos pormenores na hifenização que Portugal e Brasil estão a aplicar de forma divergente).
Sendo Camões considerado um renovador da língua
portuguesa, poderíamos esperar abertura às mudanças na língua portuguesa. No
entanto, o poema que passo a transcrever indicia que o poeta teria sido contra
todas as reformas: a de 1911, a de 1945 (1943 no Brasil) e o AO90.
Confira:
Sam taes os dões na Lingua Portugueza,
Tam forte, femenil, e tam fermosa,
Como erão na latina. Tal belleza,
Despois na nossa posta, é mais famosa.
Mas a patria christã da-me a certeza
D'hua sentença fea e desditosa:
Se eu vivera outra vez, morrera à míngua,
Pois ja ninguém entende a minha língua.
Forão sutis mudanças a mudalla,
A pouco e pouco sempre em crecimento,
Que ja eu nam consigo bem uzalla
Porque foi mui disforme tal augmento.
Mas inda assi nam deixarei de amalla
Que a lingua tão bem é um sintimento.
E por tanto da lingua estar ja morto,
Eu sinto, por ser morto, algum conforto.
Em Azeitão, a Lua assumiu a forma de queijo... amanteigado!
Nos
últimos dias, houve grafias para todos os gostos:
1.
As imagens da Super Lua pelo mundo
Revista VISÃO
2.
Veja agora a 'Super-Lua' em 30
segundos
Jornal CORREIO DA MANHÃ
3.
Dicas para fotografar a superlua de domingo
Sítio da RÁDIO RENASCENÇA
Quem
tem razão?
Consultemos a Infopédia:
a) Na única entrada com super-, diz-se que é um elemento de
formação de palavras, ou seja, não é uma palavra com vida autónoma;
b) Na entrada súper, há três sentidos:
-como advérbio,
na linguagem coloquial, a significar “muito,
bastante”;
-como adjetivo,
designando a gasolina súper (redução
de supercarburante);
-como nome,
na forma reduzida de supermercado.
Conclui-se que em “Super Lua”, temos um prefixo
e não uma palavra com vida própria. Assim sendo, teremos de aplicar as regras
de hifenização.
O Formulário de 1943 (Brasil) e o Acordo de
1945 (Portugal) determinam que nos compostos
formados com os prefixos hiper, inter e super, só há hífen
quando o segundo elemento começa por h ou r.
Estaria
legitimada a grafia “superlua”, não fosse um pormenor que faz toda a diferença…
Consagrando o que já era prática corrente,
o AO90 diz-nos que o hífen é usado após prefixos e radicais de composição
quando a palavra a que se juntam é um estrangeirismo, um
nome próprio ou uma sigla: anti-apartheid, anti-Europa, mini-GPS.
O Correio da Manhã acertou quando escreveu super-Lua, pois, neste contexto, Lua é um nome próprio!
CONCLUSÃO:
1943 (Brasil) e
1945 (Portugal)
AO 90 (Portugal e Brasil)
SUPER-LUA
SUPER-LUA
Abraço para todos.
AP
P.s.:
Há mais uma super-Lua no próximo dia 9 de setembro.