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segunda-feira, 6 de março de 2017

"É preciso rectificar para ratificar" - Jornal de Angola, sobre o AO90.


A divulgação das propostas de aperfeiçoamento do AO90 da Academia das Ciências de Lisboa deu origem a múltiplas reações. Nesse âmbito, divulgo e comento um artigo do Jornal de Angola, publicado sob pseudónimo. 
O autor defende as posições assumidas por Angola em relação à aplicação do AO90, entre elas a necessidade de ajustamentos do documento. Dá como exemplo de aspetos a rever “um elevado número de excepções à regra” e “um elevado número de palavras com dupla grafia”.
Se em relação às duplas grafias, é um facto que foram introduzidas cerca de 180 (embora não me parece que elas constituam um problema técnica, uma vez que tínhamos algumas), já em relação às exceções, embora concorde que não faz sentido mantê-las, o seu número é inferior às que resultam da aplicação do AO45.
Considerar relevante as “Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990” é que me parece estranho. 
O jornalista ou não leu as propostas da ACL ou leu-as com pouca atenção. Mais do que um aperfeiçoamento, o que a Academia propõe é um novo AO, resultado de uma mistura confusa entre o AO90 e o AO45…
Já a seguir, leia o artigo na íntegra, transcrito do Ciberdúvidas.

"Constata-se que são falsos os pressupostos do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90): não é possível haver uma única grafia para todos os países da CPLP; pelo elevado número de excepções à regra a alfabetização não é facilitada; o Acordo em nada contribui para uma maior promoção da Língua Portuguesa junto de Organizações Internacionais.
Para tal, torna-se necessário pagar para haver serviços de tradução. Em 2004, na V Conferência dos Chefes de Estado da CPLP, realizada em S. Tomé e Príncipe, foi aprovado o II Protocolo Modificativo do AO90, que, para além de viabilizar a adesão de Timor-Leste, estabeleceu que bastaria apenas três Estados membros ratificarem o AO90, para que o mesmo entrasse em vigor, não havendo, por conseguinte, a necessidade do mesmo ser ratificado por todos.
Cabo Verde foi o primeiro país a ratificar o AO90, seguido do Brasil. Em 2006, São Tomé e Príncipe foi o terceiro, dando assim condição jurídica para a entrada em vigor do Acordo naqueles três países. Porém, o Brasil declarou que não faria sentido o AO90 entrar em vigor sem Portugal proceder à ratificação do mesmo. Então, Portugal acabou por ratificá-lo em quarto lugar.
Angola, por seu turno, numa reunião do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), sugeriu que através de uma análise conjunta, se avaliasse a aplicação do AO90 nas escolas, mas a sua proposta não obteve resposta. Daí que, em 2008, decidisse levar a cabo uma auscultação interna, entre outros, com a participação de linguistas e sociolinguistas, juristas, jornalistas, economistas, metodólogos, diplomatas, engenheiros informáticos, editores, gráficos e livreiros, que concluíram o seguinte: o AO90 apresenta aspectos positivos, como simplificações e correcções, mas também constrangimentos resultantes da inexistência de um Vocabulário Ortográfico Comum (VOC); há um elevado número de excepções à regra, um elevado número de palavras com dupla grafia; existem situações aporéticas (aspectos cientificamente não explicados e outros não verificáveis).
Como preocupações decorrentes de uma aplicação imediata reconhecia-se, do ponto de vista linguístico-cultural, a ausência de cooperação com as línguas bantu, crioulísticas e malaio-polinésias, bem como a preocupação de se caucionarem futuramente situações aporéticas e constrangimentos, oficializando, de forma consciente, estas dificuldades. Do ponto de vista económico, considerou-se que a mudança de manuais escolares, com pouco tempo de utilização, implicava num esforço financeiro acrescido, ao que já vinha sendo feito com a reforma educativa, iniciada com novos manuais, distribuídios, gratuitamente, após 2004. Do ponto de vista educativo, constatou-se a dificuldade em capacitar, em pouco tempo, professores e alunos, numa língua aprendida maioritariamente como língua segunda. 
Face à complexidade das questões detectadas e às resistências ao próprio Acordo, nomeadamente por parte de académicos e outros intelectuais portugueses e brasileiros, Angola solicitou na XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros, em Cabo Verde, uma moratória de dois anos para aprofundamento desta questão. Entretanto, produziu um parecer científico indicando os aspectos do AO90 considerados positivos e outros aos quais colocava reservas. Distribuiu oficialmente esse Parecer a todos os membros da CPLP, em várias reuniões de âmbito comunitário.
Em 2012, no decurso do exercício da presidência da CPLP por Angola, realizou-se, em Lisboa, a VII Reunião Extraordinária do Conselho de Ministros da CPLP, que recomendou aos ministros da Educação desta Comunidade para, «em coordenação com peritos e com o IILP, se efectuasse uma avaliação sobre o estado da aplicação e ratificação do AO90, com especial ênfase para a elaboração dos Vocabulários Ortográficos Nacionais (VON) e do Vocabulário Ortográfico Comum (VOC)». Para tal, em 2013, Angola decidiu contribuir com uma quota voluntária, para que os países com maiores dificuldades financeiras pudessem custear os seus respectivos VON. Foi de resto o único Estado membro a fazê-lo.
Contudo, ainda em 2012, realizou-se, em Luanda, a VII Reunião dos Ministros da Educação da CPLP, que, entre outros aspectos reconheceu que «a aplicação do AO90 no processo de ensino e aprendizagem revelou a existência de constrangimentos, que podem, no futuro, dificultar a boa aplicação do Acordo»; havia também «a necessidade de se estabelecerem formas de cooperação efectiva entre a Língua Portuguesa e as demais línguas de convívio nos Estados membros».
Incumbiram, também, o Secretariado Técnico Permanente (Portugal/Angola/Moçambique) para que, «junto e com o apoio do Conselho Científico do IILP e de instituições académicas dos Estados membros, se procedesse a um diagnóstico relativo aos constrangimentos e estrangulamentos na aplicação do AO90» e ainda «acções conducentes à apresentação de uma proposta de ajustamento do AO90, na sequência da apresentação do referido diagnóstico».
Estamos em crer que a análise plural do parecer apresentado por Angola, como um contributo à identificação de alguns dos problemas ora levantados para a melhoria do AO90, é uma boa proposta de trabalho para se superarem as limitações de um primeiro texto do Acordo, que, reconhecidamente, nasceu coxo. Também, o estabelecimento de um calendário de trabalho aturado interno (cada Estado-membro) e externo (todos os Estados-membros), para o melhoramento do texto do AO90, contribuiria para uma maior concertação a nível comunitário.
É neste contexto que nos parece relevante o trabalho aprovado em plenário pela Academia de Ciências de Lisboa ao elaborar um documento intitulado “Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990”. A forma dinâmica e não estática de se encarar a questão do AO90 permite aos académicos e outros membros da sociedade civil abordarem esta problemática de forma abrangente, tolerante e descomplexada, diferentemente de muitos políticos, que fazem da Língua Portuguesa um cavalo de batalha. Assim, por conta dos "donos da língua", a promoção e difusão da Língua Portuguesa é quem mais perde.
Fonte
Artigo de opinião publicado, sob pseudónimo, no Jornal de Angola de 14/02/2017, escrito segundo a norma ortográfica de 1945.

domingo, 5 de março de 2017

Ortografia: guerras de alecrim e manjerona!


Ironicamente, aquilo que era para unificar transformou-se num dos principais motivos de discórdia. Considerado ilegal por alguns, o Novo Acordo Orográfico está oficialmente em vigor em Portugal (como no Brasil e em Cabo Verde), tendo o período de transição terminado em maio de 2015.
Mas o mar da ortografia continua agitado…
1. Em 23/1/2017, foi posta em linha a Petição Cidadãos contra o "Acordo Ortográfico" de 1990 que reclama a desvinculação de Portugal desta norma ortográfica.
2. Em 26/1/2017, a Academia das Ciências de Lisboa aprovou em 26/1/2017 uma proposta de aperfeiçoamento do AO, documento inútil e que analisei AQUI.
Com a devida vénia, transcrevo a súmula apresentada no Ciberdúvidas.

O parlamento e o Governo de Portugal afastaram a eventualidade de uma revisão do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO) no país fora do quadro multilateral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e, em concreto, no que está atribuído ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa. Esta posição decorre da audição parlamentar realizada em 7/2/2017, na qual foi discutida e rejeitada a proposta de aperfeiçoamento do AO que a Academia das Ciências de Lisboa aprovara em 26/1/2017.

Das várias notícias e artigos publicados sobre este assunto, selecionam-se:

Artigo
Data/Fonte          
01
Apontamento no Telejornal
07/2/17, RTP 1, aos 50' 49''
02
07/2/17, "Expresso (diário)"
03
07/2/17, "Público" (notícia da agência Lusa)
04
08/2/17, Nuno Pacheco, "Público"
05
08/2/17, Alexandra Carita, "Expresso (diário)"
06
08/2/17, Henrique Monteiro,"Expresso (diário)"
07
09/2/17, Joana Petiz, "Diário de Notícias"
08
09/2/17, TSF
09
30/1/17, blogue "Acordo Ortográfico: O que mudou?"
10
09/2/17, Francisco José Viegas, "Correio da Manhã"
11
01/2/17, Rolf Kemmler, AICL, Colóquios da Lusofonia
12
26/1/17, Ana Salgado, Pórtico da Língua Portuguesa
13
11/2/17, Telmo Verdelho, Rolf Kemmler, João Malaca Casteleiro, "Expresso"
14
11/2/17, Miguel Sousa Tavares, "Expresso"
15
13/2/17, Rita Cipriano, "Observador"
16
14/2/17, Wa-Zani, "Jornal de Angola"
17
16/2/17, Nuno Pacheco, "Público"

Ainda sobre a proposta de aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico que a Academia das Ciências de Lisboa (ACL) viu rejeitada pelo parlamento e pelo governo de Portugal, o programa Páginas de Português do dia 26 de fevereiro de 2017 ouviu o seu principal responsável, Artur Anselmo, que explica as razões da iniciativa e as alteraçõesem concreto. E, em contraponto, o gramático brasileiro Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras, e o académico português João Malaca Casteleiro – um e outro criticando esta iniciativa unilateral da ACL. Aqui.

Abraço.
ProfAP

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Governo rejeita rever o Acordo Ortográfico!

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva  |  GERARDO SANTOS / GLOBAL IMAGENS

Nota minhas: 
1. Embora São Tomé e Príncipe tenha ratificado em A90 em 14/12/2006, não tenho dados que confirmem que ele esteja a ser aplicado, como diz a notícia. Em junho de 2016 estavam a ser processadas as medidas para a sua implementação. Vou tentar saber em que ponto estão as coisas lá para os lados do Equador…
2. Quanto à proposta de "aperfeiçoamento" da Academia de Ciências de Lisboa (cuja análise detalhada apresentei AQUI), sem ponta por onde se lhe pegue, não passa de um rascunho complicado, desconexo, impreciso e sobretudo inútil.

Ministro dos Negócios Estrangeiros recusou-se comentar a proposta da Academia de Ciências sobre o acordo

O ministro dos Negócios Estrangeiros português afastou hoje a possibilidade de revisão do Acordo Ortográfico, referindo que está em vigor em Portugal e que falta ser aplicado pelos países onde a ratificação ainda está em curso.
"O momento em que estamos do processo de implementação do Acordo Ortográfico é este momento: para países como Portugal, Brasil e outros, está em vigor; noutros países que o aprovaram, o processo de ratificação ainda está em curso", disse hoje Augusto Santos Silva, à margem da apresentação da plataforma "Português Mais Perto".
O chefe da diplomacia portuguesa referia-se a Angola e Moçambique, que ainda não ratificaram o acordo ortográfico, em vigor em Portugal, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
"A nossa posição é que devemos aguardar serenamente para que o processo de ratificação seja concluído para que o acordo possa entrar em vigor em todos os países que o assinaram e o aprovaram", afirmou o ministro, quando questionado sobre a revisão do acordo ortográfico de 1990 (AO90), proposta pela Academia de Ciências de Lisboa (ACL).
Interrogado se o Governo aceitará as "sugestões de aperfeiçoamento" do acordo, Santos Silva respondeu: "Não tenho mais nada a dizer".
"O Acordo Ortográfico está em vigor em Portugal, é um acordo internacional que obriga o Estado português", referiu o ministro, acrescentando que "evidentemente que nada está isento nem de crítica nem de possibilidade de melhoria".
A Academia de Ciências de Lisboa aprovou um documento com "Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa" de 1990, propondo o regresso de consoantes mudas, do acento gráfico, em alguns vocábulos, do circunflexo, noutros, assim como do hífen.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Propostas da Academia de Ciências para o AO90: a montanha pariu um musaranho!

A leitura dos considerandos do documento com sugestões para aperfeiçoar o Novo Acordo Ortográfico levaram-me a admitir que daí sairia algo interessante e verdadeiramente útil. Quando cheguei à introdução, as minhas esperanças ganharam força:
Esta declaração não é um tratado de ortografia. Apresenta, antes, sugestões de aperfeiçoamento e esclarecimento de alguns pontos do texto de 1990, para pôr fim ao ‘desacordo’ e ao amálgama de realizações em curso que deixam pairar suspeitas de ‘anarquia’.
Excelente!, disse para mim mesmo.

Logo a seguir: “Trata-se de um contributo que resulta de aturada reflexão em torno da aplicação da nova ortografia e sobre algumas particularidades e subtilezas da língua portuguesa que não podem ser ignoradas em resultado de um excesso de simplificação.
Excesso de simplificação?! Será que vem aí o “complicómetro”, modalidade que praticamos com tanta convicção? E veio mesmo, como vamos ver…

PROPOSTAS DE ALTERAÇÃO DO AO90
COMENTÁRIOS (MEUS)

1. Sobre a acentuação gráfica

1.1. Reintroduz-se o acento em vários vocábulos que estão em homografia com outros: pára, forma do verbo parar; péla(s), nome e forma do verbo pelar; pélo, nome e forma do verbo pelar; pêlo(s), nome.
1.2. O acento na forma dêmos (presente do conjuntivo) para se distinguir de demos (pretérito perfeito do indicativo) passa de facultativo a obrigatório.


1.3. Reintroduz-se o acento circunflexo nas 3.as pessoas do plural dos verbos terminados em eem e seus derivados: crêem, lêem, vêem, dêem, relêem, desdêem.

1.4. O acento da terminação -ámos do pretérito perfeito do indicativo dos verbos da 1.ª conjugação passa de facultativo a obrigatório para a distinguir da terminação -amos do presente do indicativo.






1.5. A supressão do acento gráfico nos ditongos abertos quando constituem sílaba tónica de palavras paroxítonas retiraria o acento tónico nessas palavras terminadas em –r, pois se estas palavras perdessem o acento passariam a agudas, pelo que a manutenção do acento é necessária. Desta forma, desobedece-se à prescrição, do AO90, de não se acentuar os ditongos ei e oi nas paroxítonas, mas obedece-se à regra de as acentuar quando terminam em –r, como em blêizer, destróier, gêiser, lêiser.




1. Seguindo a mesma lógica, a ACL teria de recuar mais de 70 anos e reintroduzir um bom número de acentos desambiguadores eliminados pelo AO45:
.bôla/bola
Quando lemos “Vamos à bola!”, como interpretamos? “Vamos ao futebol!” ou “Vamos deliciar-nos com uma daquelas bolas de carne típicas da gastronomia nortenha!”?
.êste/este
Em “Para este, não há problemas.”, referimo-nos à localização geográfica ou ao demonstrativo?
E assim sucessivamente, como em êle/ele, fôrma/forma ou côr/cor.

2. Considerando que há uma diferença acentuada na pronúncia desta terminação (aberta no Sul, fechada no Norte), é uma enorme gafe da ACL esta proposta.
Se há alterações introduzidas pelo AO90 que fazem sentido, esta é uma delas.
Atente-se que o AO45 determinou a não acentuação de “dezoito” precisamente por não haver uma pronúncia uniforme (“dezóito” no Sul, “dezôito” no Norte).

3. Uma pérola de clareza esta proposta…
A “alteração” é desnecessária. Basta articular as regras 2 e 5 da Base X:
a) Recebem acento agudo as palavras paroxítonas que apresentam na sílaba tónica vogais abertas e que terminam em -l, -n, -r, -x e -ps;
b) Recebem acento circunflexo as palavras paroxítonas que contêm na sílaba tónica vogais fechadas e que terminam em -l, -n, -r, ou –x.
2. Sobre as sequências consonânticas

2.1. Recuperam-se as consoantes não pronunciadas:
a) Quando “geram homofonias geradoras de ambiguidade” (sic!): acepção (sentido) vs. acessão (consentimento); corrector (quem corrige) vs. corretor (intermediário); espectador (aquele que olha) vs. espetador (o que espeta); óptica (visão) vs. ótica (audição); recepção (recebimento) vs. recessão (retrocesso);
b) Nos casos em que a sua eliminação origina grafias que não existiam na língua: abjeccionismo (*abjecionismo), anticeptismo (*anticetismo), conceptível (*concetível), interruptor (*interrutor);
c) “sempre que a consoante tem valor significativo, etimológico e diacrítico”: conectar, decepcionado, interceptar.



2.2. Recomenda-se o uso preferencial, “para evitar arbitrariedades”, da grafia com a consoante na palavra característica, atualmente na lista das duplas grafias a par de caraterística.
2.3. Mantém-se a supressão das consoantes nos casos em que são invariavelmente mudas em todos os países de língua oficial portuguesa. A grafia passa a ser única em todos os países de língua oficial portuguesa: acionar, atual, batizar, coleção, exato, inspetor, projeto.












4. Aplicando o mesmo critério, teríamos de eliminar a palavra sportinguista dos dicionários…


5. O que é um valor significativo? Que dizer então de grafias (recomendadas pela ACL) em que a supressão da consoante muda poderá vir a afetar a pronúncia, como é  o caso de coleção e inspetor ou projeto?

6. A arbitrariedade é a possibilidade de usarmos em pé de igualdade característica e caraterística? Que fazer então ao par sector/setor anterior do AO90?

7. Aqui, a etimologia não conta…
3. Sobre o emprego do hífen
Por motivos de clareza gráfica, o que permitirá evitar possíveis riscos de ambiguidade, o emprego do hífen é recomendado nos compostos com elementos de ligação quando os seus elementos, com a sua acentuação própria, não conservam, considerados isoladamente, a sua significação, ou seja, o sentido da unidade não se deduz a partir dos elementos que a formam.
(…)
3.1. Só, por conseguinte, as combinações vocabulares que formem verdadeiras unidades semânticas e sejam, ipso facto, verdadeiros compostos é que exigem, em rigor, o emprego do hífen, como água-de-colónia, braço-de-ferro, entra-e-sai, pé-de-meia.
3.2. Os vocábulos mandachuva, paraquedas e paraquedista passaram a escrever-se aglutinadamente por se ter perdido a noção de composição. Os restantes compostos com a forma verbal manda- e pára- continuam a ser separados por hífen conforme a tradição lexicográfica: manda-lua, pára-choques, pára-brisas, pára-raios.


3.3. Emprega-se o hífen nos vocábulos onomatopaicos formados por elementos repetidos, como em au-au, bau-bau, lenga-lenga, tique-taque, truz-truz, zás-trás.

3.4. Para evitar indecisão interpretativa e manter identificação de forma, recomenda-se o emprego do hífen: co-réu (*corréu), co-utente (*coutente).





3.5. Reintroduz-se o hífen “em palavras formadas pelos elementos não- e quase-, por se considerar que os elementos possuem uma função prefixal quando se unem a bases substantivas, adjetivas ou verbais.”

8. Veja-se a “clareza” deste discurso!






9. Só nos faltava mais esta: a juntar às exceções “consagradas pelo uso” do AO90, agora as da ACL.

10. É assim tão grande a diferençaentre paraquedas e para-choques? Até o Portal da Língua Portuguesa admite as duas grafias: para-quedas e para-quedas



11. Então, passamos a escrever zum-zum, xi-xi e zigue-zague?

12. Regra (?) que nada esclarece. E que fazemos a coleitor, cotexto, covalente, coação (ação conjunta) ou cocorrente (corrente de direção igual à de outra cocorrente)?

13. Seguindo a mesmo fio de raciocínio, muitos outros hífens estarão na calha: uns a reintroduzir e outros a fazerem história…
Pode ler o documento completo AQUI.

Curiosamente uma das regras mais obscuras do AO90 não mereceu qualquer censura da ACL: o uso de maúscula/minúscula nos pontos cardeais.
Neste caso, justificava-se mesmo um regresso a 1945.
AO45
AO90
Os nomes dos pontos cardeais e dos pontos colaterais, que geralmente se escrevem com minúscula inicial, recebem, por excepção, a maiúscula, quando designam regiões: o Norte do Brasil; os mares do Sul; os povos do Oriente; as terras do Levante; o Ocidente europeu; o Noroeste africano; a linguagem do Nordeste.
A letra maiúscula inicial é usada nos pontos cardeais ou equivalentes, quando empregados absolutamente: Nordeste, por nordeste do Brasil, Norte, por norte de Portugal, Meio-Dia, pelo sul da França ou de outros países, Ocidente, por ocidente europeu, Oriente, por oriente asiático.
Simples: Designando regiões, os pontos cardeais escreviam-se com maiúscula: "Sou do Sul de Portugal, mas gosto mais de Norte."
Muito complicado: Empregados absolutamente, os pontos cardeais escrevem-se com maiúscula: "Sou do sul de Portugal, mas gosto mais de Norte."
Só os exemplos permitem ter um vislumbre do sentido daquele “absolutamente”…


Com tal abstrusidade, não é de espantar que uso da regra resulte em asneira:

CONCLUSÃO:
A ACL diz que “aperfeiçoar o Acordo Ortográfico não significa rejeitar a nova ortografia, mas antes aprimorar as novas regras ortográficas e retocar determinados pontos”, mas as propostas que agora apresenta:
a) Esquartejam a acentuação;
b) Desfiguram as regras das consoantes mudas;
c) Subvertem as orientações de uso do hífen.
O resultado é uma amálgama que, ao contrário do que se pretendia, é mais ambígua, omissa e lacunar que o A90!
Depois de analisar com detalhe as 15 páginas de sugestões, fiquei com a impressão de que a vontade dos membros Academia de Ciências seria rejeitar o Novo Acordo Ortográfico. Atendendo aos argumentos apresentados, seria mais claro e sustentável do ponto de vista intelectual assumir essa posição do que querer, à viva força, criar um novo AO…
Não conheço as razões dos cinco membros da ACL que votaram contra a aprovação do documento, mas têm a minha solidariedade.

A montanha pariu um rato? Não, apenas um musaranho!

Abraço.
ProfAP

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Academia de Ciências aprova documento para aperfeiçoar Acordo Ortográfico 1990!

Documento aprovado por 18 votos, com cinco votos contra, no plenário de sócios efectivos da academia.
LUSA 26 de Janeiro de 2017, 19:59

Artur Anselmo, presidente da Academia de Ciências de Lisboa 

A Academia de Ciências de Lisboa (ACL) aprovou nesta quinta-feira o documento Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, disse à Lusa fonte académica.
O documento foi aprovado por 18 votos, com cinco votos contra, no plenário de sócios efetivos da ACL, estatutariamente o órgão máximo da instituição. O documento, "que tem carácter meramente indicativo e facultativo", será divulgado na sexta-feira.
Data: 26-01-2017

Nota: Quando o documento for divulgado, irei partilhá-lo aqui no blogue com um comentário.

Abraço.
ProfAP

sábado, 14 de janeiro de 2017

Defensores da revogação do AO90 rejeitam propostas de revisão!


Os defensores da revogação do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) consideram que as posições “revisionistas” do AO90 “são de rejeitar”, disse à agência Lusa Ivo Miguel Barroso, que tem contestado o Acordo.

“O destino adequado para o AO90 é o caixote do lixo”, disse Ivo Miguel Barroso, que alertou que “para ser revisto, é necessário que haja uma alteração do teor do Anexo I e II (Bases e Nota Explicativa)”, do Acordo.
Ivo Miguel Barroso falava à Lusa a propósito do anúncio feito pela Academia das Ciências de Lisboa (ACL) que vai apresentar ainda este ano um estudo para aperfeiçoar do AO90, sugerindo nomeadamente o regresso à utilização de algumas consoantes mudas.
“Quem conhece o Direito dos Tratados sabe perfeitamente que, se o AO90 é para ser revisto, é necessário que haja uma alteração do teor do Anexo I e II (Bases e Nota Explicativa). Ou seja, tal implicaria um novo Tratado ou uma revisão do mesmo entre todos os Estados da CPLP, no sentido de alterar o Anexo I do AO90”, afirmou.
“Ora, para que isso suceda, é necessário que todos os Governos dos Estados assinem; e que, depois, o novo Tratado seja ratificado internamente. Por outro lado, tal propósito de revisão significaria que pelo menos parte das normas do AO90 não seriam para cumprir”, realçou Ivo Miguel Barroso.
Em declarações à agência Lusa, o presidente da ACL, Artur Anselmo, salientou que a instituição não tem qualquer tendência política e que o AO90 é “um problema científico e não político”, que deveria de ser resolvido definitivamente, e que é utópico impor uma grafia igual em todos os países que falam português.
Ana Salgado, coordenadora do novo dicionário da Academia (que deve estar pronto em 2018), disse também que o acordo não estabelece uma ortografia única e inequívoca, o que permite várias interpretações e, por isso, causa instabilidade. O estudo da Academia pretende acabar com essa instabilidade.
Também em declarações à Lusa, a responsável frisou que a ACL não defende a revogação do AO90, mas sim o seu aperfeiçoamento, sendo que o que propõe são ajustes, como de resto a Academia brasileira já fez também.
A Academia vai, por exemplo, recomendar o emprego do hífen em algumas palavras (fará uma listagem), revelou Ana Salgado, ressalvando que o não emprego do hífen “não quer dizer que seja um erro”.
Quanto às consoantes que não se pronunciam a ACL vai defender que elas só caiam nos casos em que há uma grafia única em Portugal e no Brasil (como na palavra 'ação'). No entanto, em casos como a palavra 'recepção' “a nossa leitura” (da ACL) é que a escrita com o 'p' é “legítima no espaço lusófono”. Na palavra 'optica', a ACL defende também o uso do 'p'.
Ana Salgado lembrou que o AO90 está a ser aplicado no ensino desde 2011 e que muitas crianças poderiam não entender a reposição de consoantes, pelo que o trabalho da Academia é abrir essa possibilidade, uma “via para uniformizar”, e deixar que depois a língua evolua.
A ACL, adianta, não quer impor nada, mas defende a reposição do acento na forma verbal “para” ("pára") e em todas as propostas vai justificar cientificamente as opções.
“Estou preparada para as críticas ao novo estudo”, disse a responsável.
Artur Anselmo também admite todas as críticas e diz que não faz sentido “abrasileirar” a ortografia do português, como não faz sentido moldá-lo à ortografia de qualquer outro país lusófono.