Conselho Superior
da Magistratura diz que os juízes não podem obrigar peritos ou advogados a
escrever no português pré-acordo ortográfico. Decisão de Rui Teixeira é
inválida
Rui Teixeira
Rui Teixeira não
foi o primeiro juiz a obrigar os intervenientes num julgamento a escrever no
português pré-acordo ortográfico: antes dele, um magistrado de Viana do Castelo
obrigou um advogado a corrigir um texto escrito em 'português atual'.
O episódio motivou
uma queixa no Conselho Superior da Magistratura, que acabou por decidir que os
juízes não podem, por um lado, ser obrigados a escrever segundo as regras do
acordo ortográfico, mas também não podem, por outro lado, obrigar os restantes
intervenientes a escrever segundo a antiga ortografia.
Esta semana, o
"Público" noticiou que o juiz Rui Teixeira se recusou a aceitar um
relatório do Instituto de Reinserção Social porque estava escrito no português
pós-acordo. E ameaçou multar quem não escreva em português 'antigo'. Houve mais
uma queixa ao Conselho Superior de Magistratura e tendo em conta a anterior
decisão deste órgão parece óbvio que a decisão será considerada ilegal.
Ainda assim, os
serviços do Instituto de Reinserção Social tiveram de refazer o relatório para
o julgamento poder continuar.
Data: 6 de novembro de 2013
COMENTÁRIOS:
1. Ser juiz em
causa própria (neste caso, em sentido figurado e próprio) é sempre um risco…
2. Segundo o jornal
Público, em abril, o juiz Rui
Teixeira escreveu que "nos tribunais, pelo
menos neste [de Torres Vedras], os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais
e não algo malcheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem
em contrário".
Teve azar o juiz
nos exemplos que foi buscar, pois só a ata pode ser uma forma do verbo atar
(mas também pode ser o fruto da ateira…).
Quanto a factos e fatos, a leitura do texto do AO (com a Nota Explicativa), mostra
que os factos são nossos e os fatos continuam a ser exclusivamente brasileiros.
Sobre os cágados, a ameaça que pairou sobre o
acento do animal esteve na primeira versão do AO de finais dos anos oitenta,
mas caiu e não consta no texto do AO90. E se tal alteração tivesse avançado
(ainda bem que não foi o caso!), não seria nada de novo, uma vez que a regra que
determina que todas proparoxítonas (esdrúxulas) devem ser acentuadas apenas foi
introduzida em Portugal com o Formulário Ortográfico de 1911 e cerca de 20 anos
mais tarde no Brasil.
3. A cereja em cima do bolo!
3. A cereja em cima do bolo!
Há pouco (11/11/2013), no “Jornal
da Noite”, na SIC, Rodrigues Guedes de Carvalho perguntou a Miguel Sousa
Tavares se achava legítima a posição assumida pelo juiz. MST não respondeu à
questão e aproveitou a circunstância para apresentar a lista de razões anti-AO. RGC, que
também é contra o Novo Acordo, despediu-se com uma “pérola”: “Obrigado, Miguel. Na Segunda voltamos a ver-nos com letra maiúscula.” Pois
é, Rodrigo. Como o juiz, também teve azar no exemplo. Os dias da semana já eram
escritos com minúscula. Mudaram os meses e as estações do ano, mas não os dias
da semana. Aqui fica a Base XXXIX do AO de 1945 a comprová-lo: “Emprego de maiúscula nos nomes étnicos de qualquer
natureza, nos nomes do calendário (com excepção das designações
vernáculas dos dias da semana, tradicionalmente escritas com minúsculas)
e nos nomes de festas públicas tradicionais.”




