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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

.recepção, receção ou de ambas as formas?

No Brasil, vai continuar a ser assim. Por cá, a Toyota terá de guardar o P no baú das recordações...

Este é um caso curioso que alimenta um dos principais argumentos contra o Novo Acordo Ortográfico.
Os dois grandes objetivos do AO são a simplificação/sistematização (com destaque para o uso do hífen) das regras e a criação de uma única norma para a regulamentação da língua portuguesa.
1.    ANTES DA ENTRADA EM VIGOR DO NOVO ACORDO (aplicava-se Acordo de 1945 em Portugal e Formulário Ortográfico de 1943 no Brasil):
Escrevíamos, tanto lá como cá, RECEPÇÃO.
2.    DEPOIS DA ENTRADA EM VIGOR DO NOVO ACORDO:
.No Brasil, continua a escrever-se RECEPÇÃO;
.Em Portugal, passou a escrever-se RECEÇÃO.

Nota 1: Os que são contra o AO argumentam que em vez de ter havido a unificação pretendida introduziu-se um afastamento com uma grafia para Portugal e outra para o Brasil.
Nota 2: Sendo verdade o que referido na Nota 1., expliquemos o porquê da queda do P num universo linguístico e da sua manutenção no outro.
A resposta está na Base do IV do AO (uma das mais controversas):
1. O c, com valor de oclusiva velar, das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç e pt, ora se conservam, ora se eliminam.
Assim:
a) Conservam-se nos casos em que são invariavelmente proferidos nas pronúncias cultas da língua: compacto, convicção, convicto, ficção, friccionar, pacto, pictural; adepto, apto, díptico, erupção, eucalipto, inepto, núpcias, rapto;
b) Eliminam-se nos casos em que são invariavelmente mudos nas pronúncias cultas da língua: ação, acionar, afetivo, aflição, aflito, ato, coleção, coletivo, direção, diretor, exato, objeção; adoção, adotar, batizar, Egito, ótimo;
c) Conservam-se ou eliminam-se facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção;
d) Quando, nas sequências interiores mpc, mpç e mpt se eliminar o p de acordo com o determinado nos parágrafos precedentes, o m passa a n, escrevendo-se, respetivamente, nc, nç e nt: assumpcionista e assuncionista; assumpção e assunção; assumptível e assuntível; peremptório e perentório, sumptuoso e suntuoso, sumptuosidade e suntuosidade.
2. Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: o b da sequência bd, em súbdito; o b da sequência bt, em subtil e seus derivados; o g da sequência gd, em amígdala, amigdalácea, amigdalar, amigdalato, amigdalite, amigdalóide, amigdalopatia, amigdalotomia; o m da sequência mn, em amnistia, amnistiar, indemne, indemnidade, indemnizar, omnímodo, omnipotente, omnisciente, etc.; o t da sequência tm, em aritmética e aritmético.

CONCLUSÕES:
PORTUGAL
BRASIL
receção
(porque o P era invariavelmente mudo)
recepção
(pois o P é invariavelmente proferido)
Observ.:
1. Temos uma dupla grafia em universos geográficos diferentes: uma grafia para Portugal e outra para o Brasil.
2. Os outros dois tipos de duplas grafias:
a) Casos em que é possível escrever de duas formas em todo o universo da língua portuguesa. Assim, podemos escrever, aqui como no Brasil, sector e setor (oscilação já reconhecida antes do AO);
b) Casos em que há dupla grafia num universo mas não no outro. Exemplos: fato e facto no Brasil, mas apenas facto em Portugal; antisséptico e antissético em Portugal, mas apenas antisséptico no Brasil.
3.Dada a diversidade de situações, é aconselhável recorrer aos dicionários ou aos vocabulários do Portal da Língua Portuguesa (para os falantes portugueses) e da Academia Brasileira de Letras para esclarecer as suas dúvidas. Tem uma lista de endereços de instrumentos de consulta online gratuitos e fiáveis no meu outro blogue (http://portuguesemforma.blogspot.com), na banda lateral esquerda.

Abraço.

António Pereira

terça-feira, 6 de agosto de 2013

.paranóia, paranoia ou tanto faz?

 No cinema encontrei esta "paranóia" acentuada...

Aqui, o Novo Acordo Ortográfico introduziu uma mudança na acentuação (tanto no Brasil como em Portugal).
Escrevíamos “paranóia”, mas a nova regra arrastou o acento para a poeira do esquecimento ou para o pelourinho do descontentamento, consoante os casos:
Não se acentuam graficamente os ditongos representados por ei e oi da sílaba tónica das palavras paroxítonas (…): assembleia, boleia, ideia  (…), Azoia, boia (…), estroina, heroico, introito, jiboia, moina, paranoico, zoina. (Base IX, nº 3).
Em Portugal, o ditongo ei já não era acentuado, pelo que esta é uma das raras situações em que o Brasil é o mais afetado.

CONCLUSÃO:
PORTUGAL e BRASIL
Escrevíamos paranóia mas passamos a escrever paranoia.
Notas:
  1. A vantagem desta alteração é que passámos a ter uma regra sem exceções, enquanto a que a determinava a acentuação do ditongo oi admitia casos especiais como comboio, boina e dezoito).
  2. O acento só é retirado dos ditongos ei e oi nas palavras paroxítonas (graves). Nas palavras oxítonas (agudas), estes ditongos, quando abertos, mantêm o acento agudo: dói, destróis, véu, papéis.
Com ou sem acento, o meu abraço é sempre garantido para todos!
António Pereira



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

.mini ranking, minirranking ou mini-ranking?

Fonte da imagem: AQUI.
 

Esta é uma situaçõa em que não havia uma regra enunciada que nos permitisse hifenizar ou não com segurança. Nada havendo sobre o assunto no Acordo de 1945 (nem no Formulário de 1911), era prática era colocar hífen: mini-ranking.
Embora o texto do Novo Acordo nada diga sobre o assunto, os critérios do Vocabulário Ortográfico do Português (AQUI), disponível no Portal da Língua Portuguesa, são esclarecedoras: “O hífen é usado (…) quando: (…) a palavra a que se juntam é um estrangeirismo, um nome próprio ou uma sigla: anti-apartheid, anti-Europa, mini-GPS.
Sendo ranking um estrangeirismo, devemos escrever: mini-ranking. O NAO não alterou a prática anterior, mas dá-nos uma regra clara.
CONCLUSÃO:
Portugal e Brasil
mini-ranking

Abraço.
AP

sexta-feira, 19 de julho de 2013

.Parlamento português debate petição a pedir o abandono do Acordo Ortográfico

Chegou ao Parlamento a 26 de Abril e ganhou “luz verde” da Comissão de Educação, Ciência e Cultura para ser discutida em plenário.
 
 
A petição “Pela desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa’ de 1990”, com 6212 assinaturas, vai ser discutida em plenário na Assembleia da República. A decisão foi tomada na Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, onde foi aprovado, a 16 de Julho, um relatório nesse sentido.
No relatório que dá provimento à petição e a remete agora para plenário, assinado pelo deputado relator Michael Seufert, refere-se (pág.18) que “é um facto objectivo que, tirando os académicos envolvidos na elaboração do próprio Acordo, é difícil encontrar uma opinião da academia portuguesa favorável ao acordo – por razões variadas”
No mesmo documento (pág. 21), antes da emissão do parecer, escreve o deputado relator: “Pouco há a assinalar contra reformas ortográficas que assinalem as normais e duradouras mudanças que as línguas sofrem ao longo dos anos. Não é o caso desta. Como os países de língua portuguesa evoluem o ‘seu’ Português de forma independente, uma reforma ortográfica clara e simplificadora provavelmente criaria mais diferenças do que identidades entre as várias formas de Português. Não viria mal ao mundo por isso e seria mais útil para cada um dos povos que escreve Português do que criar uma “ortografia unificada de língua portuguesa” de utilidade duvidosa. Aliás, de alguma maneira essa ortografia unificada contraria a própria história.”
A petição “Pela desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa’ de 1990”, que é subscrita por Ivo Miguel Barroso, Madalena Homem Cardoso e outros, num total de 6212 assinaturas, foi entregue na Assembleia da República a 26 de Abril deste ano. O seu destino inicial era a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, já que os peticionários suscitaram, em relação ao Acordo Ortográfico, “várias questões de constitucionalidade”. Mas, apesar do protesto (e do recurso) dos autores da petição, esta foi remetida à Comissão de Educação, Ciência e Cultura, que no dia 2 de Julho ouviu alguns dos peticionários.
A par disto, o grupo de trabalho criado naquela comissão “para acompanhamento do Acordo Ortográfico” decidiu adiar o seu relatório final, que deverá ser apresentado na próxima semana, na terça ou na quarta-feira. A deputada Rosa Arezes, membro do grupo, disse à Lusa que a votação foi adiada “para que sejam feitos pequenos ajustes nas conclusões”. “Achou-se por bem tecer alguns comentários, algumas considerações finais e alguns pormenores técnicos, em resultado das audições realizadas pelo grupo de trabalho e dos contributos apresentados no site da Assembleia da República e em comunicações escritas”, referiu a deputada social-democrata.
Data: 17/07/2013

 
COMENTÁRIO:
Neste espaço, faço a divulgação crítica das alterações introduzidas pelo Novo Acordo Ortográfico, trazendo ao conhecimento dos leitores as peripécias do processo de adoção das novas regras. Assim sendo, não podia deixar de dar destaque a esta petição.
1. Não me vou pronunciar sobre as questões legais.
2. Sobre as razões apresentadas no documento:
a) Concordo que a unificação das duas normas luso-africana e brasileira é artificial e utópica, mas há simplificações e sistematizações propostas no AO que são interessantes, sobretudo no domínio da hifenização;
b) Também acho que o texto do AO deixa muito a desejar, mas certamente por razões diferentes das dos subscritores da petição. O documento nem sempre é claro, contém ambiguidades e erros, tendo havido pouco rigor na sua redação;
c) Quando se diz na petição que “Pouco há a assinalar contra reformas ortográficas que assinalem as normais e duradouras mudanças que as línguas sofrem ao longo dos anos. Não é o caso desta.”, levanta-se um problema. Sendo verdade que foram agora introduzidas alterações à revelia da evolução natural da língua, o mesmo aconteceu (em larguíssima escala) com as mudanças introduzidas no início do século XX. Logo, para ser coerente, a petição teria de pedir a revogação não apenas do AO90 mas também do Formulário Ortográfico de 1911.
 
Abraço.
AP

segunda-feira, 10 de junho de 2013

.Multi-grill, multi grill ou multigrill?

Restaurante na Amora
 
 
Mais uma situação em que o hífen é a personagem principal…
Para variar, neste caso, a resposta é igual para Portugal e Brasil e o Novo Acordo Ortográfico nada altera, consagrando o que já era hábito fazer-se: hifenizar.
O que mudou (para melhor) é que que o era prática comum, mas sem uma regra escrita, deu corpo à nova regra que determina que o hífen é usado após prefixos e radicais de composição quando “a palavra a que se juntam é um estrangeirismo, um nome próprio ou uma sigla: anti-apartheid, anti-Europa, mini-GPS.
 
 
Conclusão:
Sendo grill um estrangeirismo, só podemos escrever: multi-grill
Nota: Ainda que o nome do restaurante que está na imagem (“Multi-Grill Churrasqueira”) não estivesse conforme às regras da língua portuguesa, não teria de fazer qualquer correcção, considerando o que Base XXI do Novo Acordo estabelece: “Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registo legal, adote na assinatura do seu nome.
Com o mesmo fim, pode manter-se a grafia original de quaisquer firmas comerciais, nomes de sociedades, marcas e títulos que estejam inscritos em registo público.

Abraço.
AP


domingo, 2 de junho de 2013

.para-médico ou paramédico?

Imagem encontrada AQUI.

Segundo a tradição lexicográfica, não era habitual colocar hífen a seguir ao prefixo para- (que significa preparar, esforçar-se por obter), à semelhança do que se fazia, por exemplo, com os prefixos in- e des-.
 
 Com o Novo Acordo Ortográfico, “Nas formações com prefixos (…) e em formações por recomposição, isto é, com elementos não autónomos ou falsos prefixos, de origem grega e latina (…) só se emprega o hífen nos seguintes casos: a) Nas formações em que o segundo elemento começa por h (…); b) Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento (…).
Obs.: Resumindo, com o prefixo para-, haverá hífen quando o segundo elemento começar por h ou a. Só me ocorre para-hospital, considerando que existe o termo parafarmácia…

Nota: Não confundir o prefixo com a forma verbal para (verbo parar), que perdeu o acento com o NAO, em que o hífen se mantém: para-raios, para-vento, etc. O Acordo Ortográfico introduziu a exceção paraquedas (como paraquedismo e paraquedista).

Conclusão:
Era e continua a ser: paramédico.

Abraço e bom domingo!
AP
 


segunda-feira, 27 de maio de 2013

.mal comportado, mal-comportado ou malcomportado?

Imagem encontrada AQUI.
 
É comum vermos as três grafias do desafio de hoje, sobretudo “mal comportado”. Há uma única grafia correta? É isso que vamos ver. Para variar, a resposta é igual para Portugal e Brasil.
Mal (como bem) tem uma função prefixal, mas é um advérbio, dando origem a palavras compostas. O Novo Acordo Ortográfico refere-se-lhe explicitamente, não alterando as regras de 1943 (Brasil) e de 1945 (Portugal).
Eis o que diz o nº 4 da Base XVI: “Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios bem e mal, quando estes formam com o elemento que se lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e tal elemento começa por vogal ou h. No entanto, o advérbio bem, ao contrário de mal, pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante.

Conclusão:
Apesar de tudo, as regras aplicáveis a mal são mais regulares do que as aplicamos a bem (que será aqui abordado num futuro artigo). Só há hífen antes de vogal ou h: mal-educado e mal-humorado, mas… malcheiroso, maldisposto, malgovernado, malvisto e malcomportado!

(Com)portem-se bem!
Abraço.
AP