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quarta-feira, 3 de abril de 2013

.auto-suficiente, autosuficiente ou autossuficiente?

Encontrei este título na versão online (AQUI) do Jornal de Notícias de hoje:

Só em vinho é que somos autosuficientes
No desenvolvimento do artigo era dito que “Portugal apresenta um grau de autosuficiência alimentar de 81%”, o que me deixa a convicção de que não se trata de uma gralha. Acrescento que este jornal aplica o Novo Acordo Ortográfico.

Analisemos a questão ponto por ponto.
1. Segundo o Acordo de 1945 (Formulário de 1943 para o Brasil), a regra dizia que, com o prefixo auto, havia hífen antes de vogal, h, r e s. Logo, o correto era escrever auto-suficiente.
2. Considerando que o JN adotou o AO90, vamos à nova regra, na Base XVI, ponto 2. a): Nas formações em que o prefixo ou falso prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos domínios científico e técnico. Assim: antirreligioso, antissemita, contrarregra, contrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom, minissaia, tal como  biorritmo, biossatélite, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia.
Aplicando a regra, temos de passar a escrever autossuficiente! “Autosuficiente” é uma aplicação incorreta das novas regras. Não se escreve nem se escrevia assim.

Conclusão:
A grafia atual é autossuficiente!

Comentário:
Há quem indique esta regra como uma prova de que o AO desfigurou a língua portuguesa. Neste caso, não se justifica a crítica. Este tipo de aglutinação não é novo (sobretudo no campo científico). Já escrevíamos biorritmo, biossatélite, fotossíntese, morfossintaxe, etc. Há uma grafia bem mais estranha que todos conhecemos: girassol. Não são as comuns as aglutinações verbo+nome. Com o AO, temos mais dois casos a juntar à lista: mandachuva e paraquedas (e respetivos derivados) No entanto, o Portal da Língua Portuguesa e Academia Brasileira de Letras leem de forma diferente o texto do Acordo em relação a estas duas situações: por cá, admitem-se também as variantes com hífen (manda-chuva e para-quedas); no Brasil, o VOLP só regista as grafias aglutinadas. Consultando as observações postas a seguir ao ponto 1. da Base XV do AO, tenho de concordar com a aplicação feita pela Academia Brasileira: “Obs.: Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.
Esclarecedor!

Como não somos autossuficientes nos afetos, segue, como sempre, o meu abraço.
AP
 Imagem encontrada AQUI.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

.Entrevista ao "Educadores Multiplicadores"!


O entrevistado de hoje é a nosso amigo António Pereira do blog “Acordo Ortográfico: O que muda?
Lembramos que tem mais entrevistados no Educadores Multiplicadores, confira!

Vamos à entrevista, aproveite!

 
E.M. Fale um pouco de você. Quem é António?
Vivo perto de Lisboa, numa pequena localidade, inserida numa reserva ecológica.
Adoro o mar e gosto de ler, de escrever, de cinema e de cozinhar.
Dedico-me à agricultura biológica em pequena escala, confecionando compotas e conservas (para os colegas e amigos) com os legumes e frutos bio que vou produzindo. Última criação: compota de nabo com pinhões.
Dizem que tenho sentido de humor, mas não suporto injustiças, sobretudo as que conduzem ao sofrimento humano.

E.M. Você atua como professor? Conte-nos um pouco do que faz como profissional.
Sempre desenvolvi o meu trabalho de professor com base em dois princípios.
O da AÇÃO, recorrendo a estratégias de estímulo do trabalho dos alunos e a atividades favorecedoras de uma progressiva autonomia. “Ouço, esqueço; vejo, lembro; faço, aprendo.” (provérbio chinês)
O da EMOÇÃO, dado a relação pedagógica ser determinante nas aprendizagens. Logo, sempre investi na criação de laços facilitadores das interações com os alunos. “Diz-me e eu esquecerei; ensina-me e eu lembrar-me-ei; envolve-me e eu aprenderei.” (provérbio de origem desconhecida)


E.M. Sabemos que a tecnologia é aliada da Educação. Nos últimos anos, temos visto que alguns estados/cidades estão distribuindo tabletes para alunos/professores e equipando as escolas com sala de informática com acesso a internet. Você acha que os alunos e professores estão preparados para tirar proveito destas ferramentas?
O essencial é a qualidade da formação (inicial e contínua) que é proporcionada aos professores e a sua motivação para o exercício da profissão. A tecnologia poderá ser um trunfo interessante em vários domínios: pesquisa criteriosa de informação, aquisição de sentido crítico, desenvolvimento da criatividade, aprofundamento da autonomia. No entanto, as novas tecnologias devem ser um meio e não um fim em si.

E.M. Se você não fosse Professor/Educador, que outra profissão você exerceria?
Poderia ter seguido a carreira de cozinheiro. Como o ensino, a culinária é uma forma de comunicação e uma fonte de emoções. Vou cozinhando para a família…

E.M. No Brasil existe a Lei do Piso Salarial do Magistério, já aprovado, e o “plano” do Senador Cristóvão Buarque de federalizar a educação básica no Brasil. E, em Portugal, existe algum plano que estabelece um valor mínimo de salário para os Professores?
Em Portugal, há um salário mínimo a nível nacional (485€ =1243R$) e um salário-base para os professores em início de carreira (809€ = 2074 R$). Estes são valores brutos a que serão ainda deduzidos impostos e contribuições para a segurança social.

E.M. Você acha que os profissionais da educação são bem vistos pela sociedade? A Sociedade sabe e reconhece o papel desses profissionais?
Embora o governo anterior ao atual tenha lançado em Portugal uma campanha contra os docentes (sobretudo os mais velhos) com o intuito de justificar medidas que levaram à degradação progressiva das condições de trabalho, inquéritos de opinião mostram que os professores (com os bombeiros e os carteiros) continuam a ser, para a população em geral, dos mais apreciados pelo seu trabalho (à frente de médicos, militares e polícias).

E.M. Você acha que o Professor tem sua parcela de culpa em deixar ou permitir que a sociedade não o valorize?
Atualmente, em Portugal, a desmotivação é grande e a preocupação para os professores é o desemprego que atingiu a classe em 2012 e vai agravar-se em 2013. Logo, para uma grande parte dos meus colegas, o que está em jogo é a sobrevivência.
Para valorizar a sua imagem junto da opinião pública, o professor não deve desistir de otimizar a qualidade do seu trabalho e comunicar com as famílias dos alunos, envolvendo-as no processo de ensino-aprendizagem. Dessa forma, pode dar visibilidade às suas estratégias de ação na escola e na sala de aula. Mesmo com as dificuldades que enfrentamos, é fundamental acreditar que podemos fazer a diferença na vida das crianças e jovens. É sempre a fé que nos salva…

E.M. Os governos sabem o deve ser feito para melhor a educação no País: Valorizar os profissionais da educação, oferecer os recursos disponíveis e assistência pedagógica para um bom aprendizado. Em sua opinião, por que eles não fazem?
Nalguns casos, pode ser por razões ideológicas, em que, numa perspetiva mais conservadora, não há a noção de que os alunos de hoje são muito diferentes dos de há 10, 15 e 20 anos. Logo, ignora-se que o trabalho do professor é muito mais complexo e, consequentemente, os recursos teriam de ser diversificados para fazer face a essa complexidade.
Noutras situações, as razões são meramente economicistas. A ideia de que a educação é a base do desenvolvimento da sociedade é uma bandeira dos discursos dos governantes, mas não sai do papel para o terreno. Seria necessária coragem para fazer uma aposta na cultura em geral e na educação em particular. Muitas vezes, não há vontade nem talento para o fazer.

E.M. “Comenta-se que, os professores não comungam das mesmas opiniões, principalmente, quando é para fazer greve e paralisações, disseminando a ideia de que a classe de professores é desunida”. O que você pensa a respeito?
Não é fácil unir os professores em ações reinvindicativas. Por um lado, há uma grande heterogeneidade na classe; por outro, as hipóteses de sucesso de uma greve são mais limitadas devido à natureza do trabalho do professor cuja falta não se faz sentir como acontece, por exemplo, com os hospitais ou com os meios de transporte.
Em Portugal, também é isso que acontece. A exceção à regra foi uma memorável manifestação há quatro anos que reuniu 100 000 professores (num universo de 150 000), em Lisboa, para mostrar a indignação face à forma como estavam a ser desconsiderados pelo Ministério da Educação. Tive a emoção de participar e ainda me comovo quando me vem à memória esse momento único de união.

E.M. Como você gostaria que fosse o ambiente escolar, especialmente, a sala de aula? O que ela, sala de aula, deveria ter para que o trabalho (de educar) fosse melhor aproveitado?
Em primeiro lugar, seria necessário que tanto os professores como os alunos estivessem na sala de aula de corpo e alma, motivados.
Na minha opinião, o que mais contribui para a degradação do ambiente escolar e para o empobrecimento do ensino e das aprendizagens é a indisciplina dentro da sala de aula. Se não forem criadas/impostas condições que permitam que todos possam ouvir e falar nos momentos certos, fica ameaçado o direito de aprender e limitado o trabalho do professor.

E.M. Em sua opinião, qual a razão para tanta violência na escola? Qual o real motivo (sua opinião) para com o desrespeito enfrentado pelos professores durante as aulas?
Concordo com aqueles que defendem que as atitudes dentro da sala são influenciadas pelo que de bom e de mau existe na casa de cada aluno. As disfuncionalidades no seio das famílias e a demissão do seu papel educativo (por negligência ou impotência) são como uma bola de neve que entra pela porta da sala de aula e se abate estrondosamente sobre o professor.
 

E.M. Algumas escolas estão sem segurança e sem liberdade de “punir” o aluno quando necessário, de maneira rígida, porém educativa. O que você pensa sobre o projeto de lei que punir o aluno quando agredir o professor/educador?
Já fui mais tolerante em relação ao assunto. Entendo que o direito que todos os alunos têm de aprender não pode ser posto em causa por aqueles que não respeitam as regras. Assim sendo, embora, por princípio, defenda uma escola inclusa, aceito que pode ser necessário excluir alguns (preferencialmente com medidas educativas) em nome do bem comum.


E.M. O que a motivou a criar um blogue? Qual a finalidade dele?
Gosto de comunicar e o blogue é um meio precioso para o fazer: é imediato e global.
O blogue “Acordo Ortográfico: O que muda?” foi criado no âmbito de uma iniciativa de divulgação do Novo Acordo Ortográfico junto dos alunos, professores, funcionários e famílias dos alunos da minha escola. O sucesso da iniciativa superou rapidamente as fronteiras da comunidade escolar e, atualmente, a maior percentagem de visitas vem do Brasil, muito por influência da visibilidade que advém da inclusão no projeto “Educadores Multiplicadores”.
A finalidade do blogue é divulgar criticamente as regras do Acordo Ortográfico e informar os leitores sobre a respetiva aplicação em Portugal e no Brasil.

E.M. O que você mais gosta na arte de blogar? Qual a parte mais difícil?
Gosto de comunicar e de poder ser útil. Receber cerca de 1000 visitas diárias é um prazer e uma responsabilidade acrescida.
A parte mais difícil é a publicação de mensagens com regularidade, pelo tempo que consome e pelo esforço que invisto para que os textos fiquem apresentáveis, pois, por ser disléxico, “como” letras, sílabas e palavras…

E.M. Seu blogue proporciona parcerias entre blogs, certo? Qual a forma de divulgação que mais gosta de usar para divulgar seu blogue?
Gosto do projeto “Educadores Multiplicadores”, pois centra-se na educação, aproximando os seus membros. Outros espaços (como o Teia ou Dihitt), embora sendo também uma forma interessante de divulgação, são mais generalistas.

E.M. O que você acha das boas parcerias entre blogues?
Quem vê os blogues como uma forma de comunicação não pode ignorar as parcerias. São como uma montra que dá visibilidade ao trabalho de cada um e uma oportunidade de conhecer outros blogues e de aprender.

E.M. Onde você busca inspiração para elaborar suas postagens? Que fontes você costuma pesquisar para embasar suas postagens?
Inspiro-me no mundo que me rodeia: os meios de comunicação, as conversas com amigos, leituras, outros blogues, etc.
Quanto às fontes, consulto gramáticas, os dicionários de Portugal e Brasil, os vocabulários (o do Portal da Língua Portuguesa, em Portugal, e o da Academia Brasileira de Letras), o Ciberdúvidas e alguns blogues portugueses e brasileiros dedicados à língua portuguesa.

E.M. Se você puder nos contar, quais são seus projetos profissionais para 2013?
Dentro de alguns meses, poderei vir a participar num projeto educativo de voluntariado num país africano de língua portuguesa.

E.M. Quais são os projetos para o seu blogue? Você tem outros blogues, quais?
No blogue sobre o Acordo Ortográfico, estou a trabalhar num guia de bolso para o português do Brasil, como já fiz para o português europeu.
Sim, tenho outros blogues. Destaco dois: um dedicado à língua portuguesa
(http://portuguesemforma.blogspot.com) e outro centrado na escrita e na fotografia de (http://imagenscomtextos.blogspot.com).
Mais recentemente, viram a luz do dia mais dois projetos: um dedicado à culinária (http://receitasedicasparasi.blogspot.com) e o último chama-se As palavras têm alma! (http://poesiadita.blogspot.com) e partilha vídeos de poemas em português. Destina-se a alunos, professores e ao público em geral.
 
E.M. Deixe dicas para os Multiplicadores de como um(a) blogueiro(a) deve fazer e do que não deve fazer para ter um bom blogue.
1. Na vida como nos blogues, é essencial amar o que se faz.
2. Tratando-se de comunicação, é importante ser claro na apresentação das ideias. Uma escrita cuidada será sempre apreciada!
3. Se o blogue quer assumir-se como um projeto a longo prazo, não tem sentido copiar de outros blogues. A autenticidade será uma mais-valia. Citando Fernando Pessoa (através do heterónimo Ricardo Reis): “Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/No mínimo que fazes.
4. Finalmente, há que aprender com os erros. Se “errar é humano”, corrigir-se é… divino!
 
E.M. Deixe seus agradecimentos aos seus leitores e seguidores.
Em primeiro lugar, obrigado, Irivan, pela confiança que o convite para esta entrevista representa. Aos colegas educadores multiplicadores, agradeço o tempo que investiram na leitura da entrevista, esperando que o meu português europeu não tenha sido um obstáculo para a comunicação das ideias.
Um abraço muito grande e cheio de carinho para todos!

 


Queremos agradecer a você, Multiplicador António, pela entrevista. Dizer que a sua chegado ao E.M., trouxe ganhos de excelente qualidade através de seus comentários, sendo um dos mais atuantes e com isso tem contribuído para o crescimento e divulgação do Educadores Multiplicadores.
Deixo também convites aos professores e profissionais da educação, que tenham blog com conteúdos voltado para a educação, a fazerem parte da família Educadores Multiplicadores.

Muito obrigado a você e aos seus leitores.

terça-feira, 19 de março de 2013

.Prazeres e lazeres: peixe grelhado em Setúbal


Hoje, não vos trago nada sobre AO e centro-me na etiqueta do blogue “Prazeres e Lazeres”.
Como vivo perto, de vez em quando, regalo-me com aquilo em que os restaurantes e tascas de Setúbal são exímios: o peixe fresco!
Descobri hoje A Taberna do Zé Luís: serve apenas almoços e só confeciona peixe grelhado no carvão, pescado pelo Sr. Zé Luís ou adquirido a outros pescadores de Setúbal. A frescura é irrepreensível.
O peixe está no expositor (refrigerado) e o cliente escolhe, variando o preço entre 7 e 9€ a dose. Entre carapaus grandes, sardas escaladas, chocos, besugos, sarguetas, douradas e salmonetes, a minha mulher escolheu uma sarda e eu, salmonetes. Veio tudo grelhado no ponto, com uma salada (alface, tomate e pimento assado) e umas batatas cozidas temperadas com azeite com alho. Pão, azeitonas (muito bem temperadas!) vinho branco, água mineral e dois cafés completaram o repasto. Total: 21€50.

Tinha acabado de honrar o 1º salmonete quando me lembrei de tirar a foto para partilhar...
 
Resumo:
Taberna do Zé Luís
Rua do Castelo, 41 (de fácil acesso a partir da Av. Luísa Todi)
Encerra à 2ª
Veja onde fica no Google maps, clicando AQUI.

Abraço e bom apetite!
AP

sexta-feira, 15 de março de 2013

.Reformas e acordos ortográficos em Portugal

Imagem encontrada AQUI.

Para variar, trago-vos hoje um assunto relativamente tranquilo. Com o olhar de Carlos Rocha (consultor do Ciberdúvidas), fazemos uma visita guiada ao interior da história das reformas ortográficas em Portugal.
Aqui vos deixo um excelente artigo de 2008. Boa leitura!
 
Abraço.
AP

Durante a Idade Média, a ortografia da língua portuguesa foi sobretudo fonética, havendo um certo grau de variação, já que a forma gráfica podia depender de cada autor e até de cada copista. No século XVI, afirmou-se uma tendência para criar uma ortografia de carácter etimológico, que pretendia dar às palavras um aspecto gráfico latino ou grego. Muitas vezes, as grafias eram estabelecidas em etimologias incorrectas, no afã de mostrar que a língua portuguesa pouco se afastara do latim. Os primeiros gramáticos da língua portuguesa— Fernão de Oliveira, João de Barros, Duarte Nunes de Leão, Pêro Magalhães de Gândavo — mostraram especial interesse pela ortografia e, embora as suas propostas apresentassem divergências, considera-se que procuraram moderar a tendência para a ortografia etimológica— sem sucesso. Foi assim que, no século XVIII, a ortografia etimológica se consolidou, mediante a acção da Academia das Ciências de Lisboa, criada em 1779.
Nos finais do século XIX, reconhecia-se que a ortografia etimológica tinha vários inconvenientes, entre eles, a possibilidade de variação individual. Em 1885, no intuito de uma simplificação ortográfica, A. R. Gonçalves Viana e G. Vasconcelos Abreu propuseram novas bases ortográficas. Em 1911, o Governo da República nomeou Carolina Vasconcelos, José Leite de Vasconcelos, Adolfo Coelho, Cândido de Figueiredo e Gonçalves Viana para uma comissão que elaborou um documento normativo, que foi aprovado nesse mesmo ano. Mais tarde, em 1920, a Portaria n.º 2355 alterou alguns aspectos desta reforma.
Sublinhe-se que a reforma ortográfica gerou grande polémica no Brasil, e foram precisos vários anos para chegar a harmonizar a grafia das palavras entre os dois lados do Atlântico. Deste modo, em 1931, por proposta da Academia Brasileira de Letras, assinou-se o primeiro Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro, cujas disposições, no entanto, a Academia das Ciências de Lisboa não acatou integralmente, em especial no respeitante às consoantes mudas. Em 1940, a Academia das Ciências de Lisboa publicou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, «com base na reforma de 1911, na portaria de 1920 e no acordo de 1931» (Ivo Castro, pág. 382). Em 1943, a Academia Brasileira de Letras publicava o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. No mesmo ano, em 23 de Dezembro, os governos brasileiro e português assinam em Lisboa uma convenção ortográfica, que consagrava o sistema ortográfico de 1931.

quinta-feira, 14 de março de 2013

.Portugal ganha mais com o Acordo Ortográfico do que o Brasil?

Lusa - 13/03/2013 - 11:25
Em Macau para participar no Festival Literário – Rota das Letras, o escritor angolano lembra que são as editoras portuguesas que querem entrar no mercado brasileiro.


O escritor angolano José Eduardo Agualusa defendeu esta quarta-feira, em Macau, que Portugal tem mais a beneficiar com o novo acordo ortográfico do que o Brasil, dado que são as editoras portuguesas que estão interessadas em entrar no mercado brasileiro.
 “As editoras brasileiras têm ainda imenso espaço para ocupar no Brasil, não estão preocupadas nem com Portugal nem com África, e quem está a entrar no Brasil são as editoras portuguesas. Portanto, o acordo ortográfico, desse ponto de vista, é sobretudo benéfico para as editoras portuguesas, não para as brasileiras, e se alguém fosse beneficiar seria Portugal”, disse o escritor.
Durante um encontro com alunos da Escola Portuguesa de Macau, no âmbito do Festival Literário – Rota das Letras, Agualusa, questionado sobre a sua posição em relação ao acordo ortográfico, disse “não ter já paciência para falar” sobre o assunto, porque ele “não é interessante”. “Defendo uma ortografia comum”, reiterou, considerando “não haver nenhuma vantagem em existir mais do que uma ortografia no mesmo espaço linguístico”.
Se houvesse, continuou, “porque não ter mais do que uma ortografia em Portugal, por exemplo? Os alentejanos têm o seu português, os lisboetas têm o seu português, os algarvios também, mas todos escrevem com a mesma ortografia”. O acordo ortográfico é importante, na perspectiva de José Eduardo Agualusa, “para países como Angola e Moçambique, que produzem poucos livros e importam mais, de Portugal e do Brasil e, de repente, há duas ortografias no mesmo território, o que confunde as pessoas, especialmente as que estão a chegar agora ao livro”.
“Nunca entendi por que houve tanta celeuma em relação ao acordo, porque é uma coisa que não interfere com a vida das pessoas”, disse, salientando que “Vasco Graça Moura errou no dramatismo, porque o que ele dizia era que o mundo ia acabar com a aplicação do acordo, era como um desastre global”. “Mas a verdade é que não conheço um único caso de diarreia, ninguém passou mal porque o acordo começou a ser aplicado”, disse.
O acordo ortográfico “tem uma relevância muito pequena”, mas “tem importância sobretudo para os países que importam livros”, rematou.

Data: 13/03/2013

 
Abraço.
AP
 

domingo, 10 de março de 2013

."Novo acordo, casos especiais" (D' Silvas Filho)

Trago-vos hoje uma abordagem mais técnica e menos emotiva de questões relacionadas com a AO. Transcrevo, a seguir, um texto de D' Silvas Filho sobre casos especiais do Novo Acordo.
Bom final de domingo para todos!
Abraço.
AP

Novo acordo, casos especiais
(Artigo publicado pelo Autor em Ciberdúvidas, em 2009-02-19, com o título «Sobre algumas dúvidas de interpretação do novo Acordo ortográfico»)

   Surgiram ultimamente algumas dúvidas de interpretação do acordo. Indico a seguir qual a minha posição particular nesses casos especiais. Como acentuo sempre, não pretendo fazer lei com as minhas opiniões, mas transmitir um parecer, que, na dúvida, é para mim mais sensato.
 1. Primeiramente, sublinha-se que a Academia Brasileira de Letras (ABL) é taxativa: «A tradição é um dos princípios do acordo de 1990». Nesta base, considero também que a tradição lexicográfica, habitual nos vocabulários oficiais ainda em vigor, nunca pode ser inteiramente esquecida. A história das palavras faz parte do nosso património linguístico.
   Lembra-se que o projecto de 1986, que pretendia unificar a língua (unificava 99,5% do vocabulário geral), foi recusado por ser excessivamente inovador (ex.: acabava com os acentos nas esdrúxulas e, logo, acabavam as diferenças entre o PE e o PB em palavras como António/Antônio, efémero/efêmero, etc. [em Portugal, nessa altura assustou muito a utilização da palavra cágado sem acento…, mas havia problemas de possível retorno da grafia sobre a fonia, como na palavra *bemaventurado]).
   Então, os linguistas dos dois países (nunca desistindo louvavelmente de conseguirem um dicionário único para a língua portuguesa, como têm outras línguas importantes) adoptaram para o acordo de 1990 uma política mais conservadora («uma versão menos forte»), para assim garantirem que uma grafia única tivesse maior possibilidade de ser aprovada.
   Neste espírito de se conservar a tradição, quando não há indicações de mudança taxativa no texto do novo AO, a tendência é manter-se a grafia anterior. Acrescento: quando há dúvida e enquanto não houver um Vocabulário Comum oficial…
 2. Co-herdeiro e coerdeiro
   Não faz qualquer sentido mudar co-herdeiro para coerdeiro. A desculpa é a obs. de b) da Base XVI, que manda aglutinar co- sempre. Para não se contrariar a alínea a) da mesma Base, que obriga ao hífen, por herdeiro ter h, tende-se a aplicar o 2.º da Base II, suprimindo o h. Esta inovação contraria o ponto 1 desta nota. Aliás, na citada alínea a) da Base XVI está taxativamente escrito no texto do novo AO: co-herdeiro. Uma grafia coerdeiro não só violenta o ponto 1, como violenta o próprio texto do acordo. Ora este não pode ser alterado sem um novo Acordo de todos os signatários. Se os brasileiros querem adoptar coerdeiro façam-no como dupla grafia. Não vejo que Portugal possa ser obrigado a esta inovação. Note-se que se existe coabitar, a perda do h já estratificou nesta palavra há muito tempo (ex.: Rebelo Gonçalves [RG], 1967). As palavras co-herdeiro e co-herdar aparecem com hífen em todas as publicações portuguesas sobre o novo AO, que conheço. 
3. Prefixos re-, pre-, pro-
    A dúvida derivou da aplicação de b) da Base XVI, que manda separar por hífen o prefixo que termina na mesma vogal em que o segundo elemento começa. Neste caso, no meu ponto de vista, respeita-se o ponto 1 desta nota. Consta que Evanildo Bechara, da ABL (um linguista que muito admiro pelas impressões que trocámos há tempos) é taxativo neste ponto: «Se o Acordo quisesse contrariar a tradição, tê-lo-ia indicado». Para o Brasil, tenho informações de que a ABL adoptará: reeleição reeditar. No mesmo espírito, portanto, será: reedição, reeducação, reentrar, reenviar, reexpedir, etc., como até aqui, de longa data (RG). Da mesma maneira, penso que deverão ser: preeminente, preencher, preexistir, etc. como até aqui, de longa data (RG).
   Note-se que com o prefixo re- estão a aparecer e são defendidas grafias para o novo AO com hífen quando o segundo elemento começa com e. Não foi esse o critério do Dicionário da Porto Editora, com que eu concordo. Se Portugal adoptar a grafia com hífen, não terei outro remédio senão seguir a variante brasileira, depois legítima no universo da língua.
   Quanto ao prefixo  pre-, não encontrei propostas com hífen para o prefixo átono seguido de e. Este facto torna ainda mais incoerente e insustentável a ideia de re- com hífen.
   Convém aqui fazer um reparo. Os prefixos pre-, pro- (e pos), quando separados por hífen são tónicos, com acento gráfico: pré-, pró- (e pós-). Acontece que, com o uso, alguns destes prefixos tendem a ficar fundidos com o elemento seguinte, deixando de ser tónicos (prever, proclamar [pospor]). Em Portugal, normalmente a prosódia do prefixo também muda; no entanto, enquanto essa mudança não entra nos hábitos linguísticos há alguma indefinição. É o caso, por exemplo, de proactivo, já em Houaiss na norma actual (nalguns dicionários ainda pró-activo). Então, na fase de transição a pronúncia com vogal aberta tende a fazer-se como se o prefixo ainda fosse tónico. É uma indefinição que poderá levantar problemas na aplicação desta Base.
   Mas há mais problemas nesta Base. A alínea b) do 2.º traz o risco também de retorno da grafia sobre a fonia. Por exemplo, a palavra intraocular no novo AO, pode ser eventualmente pronunciada ¦tràu¦  e não ¦trà-ò¦.

sexta-feira, 8 de março de 2013

.AO: o cadáver adiado! (Vasco da Graça Moura)

Se com o artigo de Margarita Correia vos trouxe uma acha para a fogueira em que a aplicação do Novo Acordo se tornou, hoje, trago-vos... gasolina! Aqui vos deixo o artigo "O cadáver adiado", de Vasco da Graça Moura, publicado em 2/01/2013.
 

O cadáver adiado

por VASCO GRAÇA MOURA 02 janeiro 2013
 
No Brasil, tratava-se fundamentalmente de sacrificar o trema e o acento agudo em meia dúzia de casos. E ninguém se resignava às regras absurdas de emprego do hífen... Com isso, bastou o abaixo-assinado de uns 20 mil cidadãos para se adiar a aplicação de uma coisa trapalhona denominada Acordo Ortográfico (AO). Os políticos ouviram a reclamação, estudaram-na e assumiram-na, e a sr.ª Rousseff decidiu.
Em Portugal, o número de pessoas que tomaram posição contra o AO já ultrapassava as 120 mil em Maio de 2009. Hoje, e considerando tanto o Movimento contra o AO de então como a actual Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) com a mesma finalidade, esse número é incomparavelmente mais elevado.
Portugal bem pode propor a todos os quadrantes ideológicos e parlamentares da sua classe política que se assoem agora a este cruel guardanapo.
Faltou-lhes a coragem de respeitar as opiniões autorizadas, a capacidade de reflectir com lucidez sobre o assunto, a vontade cívica de se informarem em condições.
Acabaram a produzir este lindo serviço, com a notável excepção do relatório Barreiras Duarte, aprovado por unanimidade na Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura (Abril de 2009), mas que não teve qualquer efeito prático.
A CPLP, ao engendrar o torpe segundo protocolo modificativo do AO, violou sem escrúpulos o direito internacional e traiu a língua portuguesa. Não serve. Mostrou total inconsciência, incompetência, incapacidade e oportunismo na matéria.
Agora, é evidente que, de três, uma: ou o Brasil vai propor uma revisão do AO, ou tratará de a empreender pro domo sua sem ouvir os outros países de língua portuguesa, ou fará como em 1945, deixando-o tornar-se letra morta por inércia pura e simples.
No primeiro caso, mostra-se a razão que tínhamos ao insistir na suspensão do AO, a tempo, para revisão e correcção. A iniciativa deveria ter sido portuguesa e muitos problemas teriam sido evitados.
No segundo caso, mostra-se além disso que continuamos a ser considerados um país pronto a agachar-se à mercê das conveniências alheias. Com a desculpa, a raiar um imperialismo enjoativo, da "unidade" da língua, em Portugal haverá sempre umas baratas tontas disponíveis para se sujeitarem ao que quer que o Brasil venha a resolver quanto à sua própria ortografia. Foi o que se passou em 1986 e 1990.
No terceiro caso, mostra-se ainda que ficaremos reduzidos a uma insignificância internacional que foi criada por nós mesmos.
Mas, em qualquer dos casos, a situação será muito diferente da actual.
 
Pode ler o artigo completo AQUI.