SEGUIDORES

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

.Brasil adia entrada em vigor do Novo Acordo?

Governo brasileiro prepara decreto para adiar acordo ortográfico para 2016

Imagem: AFP/Frank Perry
O novo acordo ortográfico foi introduzido nas escolas portuguesas no ano letivo de 2011/2012
 
Segundo o que acabo de ler, no Brasil, o Novo Acordo não entra em vigor no próximo dia 1 de janeiro, prolongando-se o período de transição até 2016. Em Portugal, a aplicação plena está prevista para maio de 2015.
Espero que se aproveite este tempo extra, sobretudo em dois domínios:
a) Para desatar os nós górdios que ornamentam aqui e ali o texto do AO;
b) Para criar um Vocabulário Comum fidedigno (previsto para 2014) que acabe com divergências incompreensíveis entre os Vocabulários disponíveis online: o do Portal da Língua Portuguesa e o da Academia Brasileira de Letras (com muito mais entradas, apesar de se tratar da mesma língua…).
Aqui deixo a notícia, com data de 7 de dezembro:
 
O senador Cyro Miranda, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB-GO), anunciou que a Presidente do Brasil, Dilma Roussef, está a preparar um decreto que adia a entrada em vigor do novo acordo ortográfico (AO) naquele país para 2016. O acordo é aplicado nas escolas portuguesas desde 2011.
Fonte da assessoria do Ministério de Relações Exteriores brasileiro avançou aos meios de comunicação locais que a pasta está a preparar um decreto que será apresentado à presidente Dilma Rousseff e que tem o intuito de protelar a entrada em vigor do novo AO, escreve o Jornal do Brasil.
O acordo, assinado em 2008 por sete países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), e que pretende simplificar as regras ortográficas e aumentar o prestígio da língua no cenário internacional, deveria ser aplicado pelo governo a partir de 1 de janeiro de 2013, ditavam as normas estabelecidas pelos países.
O senador de Goiás, Cyro Miranda, um dos mais acérrimos críticos do novo acordo, confirma que a presidente Dilma Rousseff tem a intenção de emitir um decreto que adia a data.
Cyro Miranda acrescenta que o ideal seria adiar a vigência para 2018 ou fazer um outro acordo que tenha a contribuição de mais setores da sociedade.
“Para além do novo acordo ter sido mal feito, os professores ficaram de fora”, disse. “Precisamos de rever tudo. Temos que descomplicar a língua, se não vai ser só retórica... Temos que aprovar um formato com lógica”, disse Cyro Miranda, citado pela Agência Brasil.
O senador afirma que governo brasileiro vai sugerir aos outros países que adiem a vigência do novo AO para que todos possam fazer uma total reformulação. 
As mudanças nas regras da língua portuguesa foram elaboradas para uniformizar a grafia dos países que utilizam o idioma e dos oito membros da CPLP apenas Angola não aderiu ao documento.
O novo AO foi introduzido no sistema educativo português em 2011. A 1 de janeiro de 2012, órgãos, serviços, organismos e entidades governamentais adotaram oficialmente a nova grafia. Nuno de Noronha                                                                       
Fonte:

Nota minha: Está previsto que Angola ratifique Acordo Ortográfico em 2013, devido à necessidade de incluir o vocabulário nacional no da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Abraço e bom fim de semana!
AP

sábado, 1 de dezembro de 2012

Depois do Acordo: bilingue ou bilíngue?

Fonte da imagem: AQUI.
 
Mais um caso interessante e complicadinho em que Portugal e Brasil, embora partilhando o Atlântico, navegam em águas não totalmente convergentes.

A. BRASIL
Na fase de transição, os falantes brasileiros ainda vão poder continuar a escrever bilíngüe. Em 1/1/2016, a norma determina uma única grafia válida: bilíngue!

B. PORTUGAL
Para nós, a fase de transição termina apenas em maio de 2015 (em Angola e Moçambique ainda nem começou…). No entanto, em relação ao assunto de hoje, o Novo Acordo não alterou nada.
1. Enquanto no Brasil o trema (¨) só caiu com o Novo Acordo Ortográfico (embora em 1971 tenha sido retirado de alguns hiatos como em saudade, manteve-se nos grupos qu e gu , como em agüentar e bilíngüe), no português europeu, o Acordo de 1945 aboliu-o definitivamente.
2. Embora Cândido de Figueiredo, no seu Dicionário de Língua Portuguesa de 1913, registe apenas bilingue, a leitura Base 27 do Acordo Ortográfico de 1945 parece indiciar que escrevíamos bilíngüe até essa data.
3. Num artigo do Ciberdúvidas (AQUI), que também parece confirmar a grafia bilíngüe até 1945, o colaborador D'Silvas Filho diz que “segundo Rebelo Gonçalves, válidas as duas variantes gráficas bilingue ¦gg_e¦ (letra u muda) e bilíngue ¦gu-e¦ (u pronunciada e palavra esdrúxula aparente).” No artigo não é identificada a obra de Rebelo Gonçalves que valida a dupla grafia bilíngue/bilingue, mas deverá tratar-se de uma destas duas: Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (1947) ou Vocabulário da Língua Portuguesa (1966). Não posso confirmar, pois são obras esgotadíssimas e, infelizmente, não possuo nenhuma delas.

Assim, temos em Portugal uma dupla grafia (em função da forma como pronunciamos), confirmada, de forma taxativa, por esta resposta do Ciberdúvidas, datada de 1997:
[Pergunta] Faz algum sentido que «bilingue» leve acento? (Duarte Viana:::: Lisboa, Portugal)
[Resposta] Bilingue pode levar acento, porque se admitem estas duas pronúncias:
a) grave: bilingue /bi-lin-gue/;
b) esdrúxula: bilíngue /bi-lín-gu-e/.
N.E.: bilingue, palavra esdrúxula com o u pronunciado, admite a variante bilingue, como vocábulo grave e com o u sem se ouvir. J.N.H./ A.P.:: 01/07/1997

CONCLUSÕES:
Portugal
bilingue e bilíngue
Nota: multilingue/multilíngue, plurilingue/plurilíngue e trilingue/trilíngue.
Brasil
apenas bilíngue
Nota: o u é pronunciado.

Abraço.
AP

P.s.: Hoje, 4/12, foi publicada no Ciberdúvidas uma resposta que confirma as conclusões apresentadas nesta mensagem. Pode lê-la AQUI.
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

.Meses do ano: sempre com minúscula?


A foto tirada perto de minha casa em Azeitão é o ponto de partida para a dúvida de hoje. Para quem gosta de marisco, peixe e é apreciador de choco frito, fica a sugestão. A matéria-prima é fresquíssima e a confeção caprichada!

1. Enquanto em Portugal, até à entrada em vigor do Novo Acordo, escrevíamos os meses do ano com maiúscula (Base 39 do Acordo de 1945), no Brasil, o Formulário Ortográfico de 1943, no artigo 3º, Base 49, determinava que “Os nomes dos meses devem escrever-se com inicial minúscula: janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro.
2. O Novo Acordo Ortográfico apresenta agora uma única regra para todo o espaço lusófono, na Base XIX, ponto 1 c): “A letra minúscula inicial é usada (…) Nos nomes dos dias, meses, estações do ano: segunda-feira; outubro; primavera.

Pergunta: Então, os meses do ano passaram a escrever-se sempre com minúscula?
Resposta: Antes do NAO havia, na escrita dos meses do ano, exceções no uso da maiúscula em Portugal e da minúscula no Brasil e vai continuar a ser assim. Vamos aos casos, com uma viagem seletiva ao interior do texto do Novo Acordo:
1. Base XXI: “Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registo legal, adote na assinatura do seu nome. Com o mesmo fim, pode manter-se a grafia original de quaisquer firmas comerciais, nomes de sociedades, marcas e títulos que estejam inscritos em registo público.
Tanto as empresas/marcas como as pessoas que têm no seu nome um dos doze meses do ano continuarão a escrevê-lo com maiúscula, pois esse direito está salvaguardado. Assim tanto o Sr. Janeiro como o seu restaurante “Casa Janeiro” conservam as maiúsculas.

2. Há que submeter a regra específica da minúscula nos meses do ano, às regras gerais do uso de maiúcula, na Base XIX, ponto 2: “A letra maiúscula inicial é usada:
a) Nos antropónimos, reais ou fictícios: Pedro Marques; Branca de Neve, D. Quixote.
O Sr. António Janeiro (do restaurante), cujo nome já estava salvaguargado pela Base XXI, vê o Janeiro com maiúscula reforçado por esta alínea.
 
b) Nos topónimos/topônimos, reais ou fictícios: Lisboa, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro, Atlântida, Hespéria.
O Rio de Janeiro vai continuar lindo e… com maiúscula, graças unicamente a esta alínea b), uma vez que não há nenhuma salvaguarda prevista para os topónimos. Por exemplo, Troia perdeu o acento.
(…)
 
e) Nos nomes de festas e festividades: Natal, Páscoa, Ramadão, Todos os Santos.
Também as “Festas de Maio” de Odemira (sul de Portugal) conservam o seu Maio com maiúscula. Segundo o Ciberdúvidas, esta regra é extensiva às datas históricas como, por exemplo, 25 de Abril em Portugal (Revolução dos Cravos) e 7 de Setembro no Brasil (data da proclamação da independência).

f) Nos títulos de periódicos, que retêm o itálico: O Primeiro de Janeiro, O Estado de São Paulo (ou S. Paulo).”
O jornal português O Primeiro de Janeiro reforça a sua maiúscula.

Abraço.
AP
 

domingo, 25 de novembro de 2012

.Escrevíamos as estações do ano sempre com maiúscula?

No meu quintal, as romãzeiras vestiram-se  de outono...

A resposta de hoje é taxativa: não, não escrevíamos sempre com maiúscula. No entanto, havia diferenças decisivas entre a norma luso-afro-asiática e a brasileira.
No Brasil, as estações do ano já se escreviam com minúscula desde o Formulário Ortográfico de… 1943!
Em Portugal, o Acordo Ortográfico de 1945 era claro na Base 39: “Os nomes de raças, povos ou populações, qualquer que seja a sua modalidade, os nomes pertencentes ao calendário, com excepção das designações dos dias da semana, (…) escrevem-se todos com maiúscula inicial (...). Exemplos: os Açorianos, os Americanos, os Brasileiros, os Cariocas (…), Outono, Primavera (…).

Então, era obrigatório escrever sempre com maiúscula? Não, pois quando as estações do ano apareciam em sentido comum, usava-se minúscula como em Completei hoje 32 primaveras!” ou “Hoje, está um verdadeiro dia de inverno.
Nalguns domínios, o Novo Acordo “esticou-se ao comprido”. Aqui, cumpriu cabalmente os seus desígnios: unifica e simplica, estabelecendo que as estações do ano se escrevem sempre com minúscula.

CONCLUSÃO:
Portugal(norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
primavera , verão, outono e inverno
Abraço.
AP

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

.ruptura, rotura ou rutura?

Fonte da imagem: AQUI.
 
A. rotura
Já tínhamos e continuamos a ter esta grafia equivalente a ruptura.

B. rutura
Esta é uma grafia introduzida pelas regras do Novo Acordo Ortográfico e que resulta da queda, no português europeu, do p de ruptura, uma vez que não é pronunciado, ao contrário do que acontece no Brasil.

C. ruptura
Eis o que era uma forma comum às normas do português europeu e do português do Brasil. Com o AO, mantém-se apenas no Brasil, onde o p é pronunciado.

CONCLUSÕES:
Portugal (norma luso-afro-asiática)
rotura (grafia anterior ao AO) e rutura (grafia que resulta da queda do p)
Brasil (norma brasileira)
rotura  e ruptura (o AO não alterou nada no Brasil)
Notas finais:
1. Embora sempre com a remissão para rotura e ruptura, encontramos a grafia rutura em dicionários do séc. XIX: MORAES SILVA, A. - Dicionário da língua portuguesa. Lisboa, Typographia Lacerdina, 1813; VIEIRA, D. -Grande dicionário português ou Tesouro da língua portuguesa. Porto, Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, 1871-1874; LACERDA, J.M.A.C.- Dicionário enciclopédico ou Novo dicionário da língua portuguesa. Lisboa, F. Arthur da Silva, 1874.
2. Curiosamente, Pedro Pinto substitui ruptura por rutura, em 1962, na oitava edição do seu Dicionário de termos médicos, Rio de Janeiro, Ed. Científica. No entanto, nos últimos 20 anos, segundo o Banco de dados da BIREME, ruptura ultrapassou rotura e rutura reduziu-se a menos de l%. (BIREME– Internet. http://www.bireme.br/. Em 31 de agosto de 2001).
3. Para alguns dicionários, a forma rotura viria de roto + sufixo –ura, o que parece pouco provável, dado que a palavra data do século XV. A forma ruptura é mais recente, tendo entrado na língua portuguesa por via erudita, provavelmente através do francês.
Notas redigidas com base na fonte http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende/ruptura.htm
Abraço.
AP


domingo, 18 de novembro de 2012

.obrigado ou obrigada?

Fonte da imagem: AQUI.

Este é um assunto em que as respostas taxativas não sáo fáceis de dar, pois não há unanimidade em relação à catalogação gramatical das palavras obrigado(s) e obrigada(s). O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, diz que são interjeições, para o Houaiss são adjetivos (participiais) e a Porto Editora regista as duas classificações. Vamos à sistematização possível:
A. Para a generalidade dos autores, obrigado deve concordar em género e em número com o sujeito/emissor, ou seja, quem está no uso da palavra.
Veja-se este exemplo adaptado de um blogue (AQUI):
"As alunas, emocionadas, disseram:
-- Obrigadas, professora. Jamais nos esqueceremos de suas aulas.
-- Eu é que devo dizer obrigada pelo vosso empenho, queridas alunas."
B. O Ciberdúvidas refere a posição do seu consultor Peixoto da Fonseca que, não discordando do que ficou dito em A., “defende, contudo, que obrigado é também usado como interjeição e que a concordância pode ser neutralizada, quando uma mulher agradece. Deste modo, Obrigado! pode ter como emissor ou um indivíduo do sexo masculino ou outro, do sexo feminino, ou ainda um grupo, independentemente do sexo dos falantes. Ainda dentro desta perspectiva, observa-se que o uso não consagrou a situação inversa, a de um homem agradecer com "Obrigada!".

CONCLUSÃO
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)

  Emissor
Enunciado
1 homem
Obrigado
1 mulher
Obrigada
2 homens ou 1 homem e 1 mulher
Obrigados
2 mulheres
Obrigadas
Mas:
Se incluirmos estas fórmulas na classe das interjeições, é aceitável, seguindo a perspetiva de Peixoto da Fonseca, que uma mulher ou um emissor no plural digam “Obrigado!”. No entanto, o uso de “Obrigada!”, “Obrigadas!” ou “Obrigados!” terá estar em sintonia com o género/número do emissor.
Conselho final:
Considerando o conteúdo do excerto (também do Ciberdúvidas) que passo a transcrever, o mais seguro será usar obrigado(s) ou obrigada(s), em função do emissor: “Note-se, no entanto, que Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), indica que obrigado é uma interjeição flexiva, registando a forma muito obrigada. Parece, pois, poder-se concluir que a concordância deve ser observada.

Abraço.
AP
P.s. Dê um saltinho também http://portuguesemforma.blogspot.pt.



sábado, 17 de novembro de 2012

.buganvília, bunganvílea ou bougainvíllea?

Fonte da imagem: AQUI.
 
Os vocabulários autorizados registarão grafias alternativas admissíveis, em casos de divulgação de certas palavras de tal tipo de origem (a exemplo de fúcsia/ fúchsia e derivados, bungavília/ bunganvílea/ bougainvíllea).
Este extrato da Base I, ponto 3, do Novo Acordo deixa-me intrigado:
1. Nas “alternativas admissíveis” não consta buganvília, o termo mais utilizado em Portugal.
2. As versões bungavília e bunganvílea não constam nem nos dicionários nem nos vocabulários.
3. Enquanto a Academia Brasileira de Letras e o Houaiss registam a versão bougainvíllea (a que é usada no Brasil), os dicionários da Porto Editora e o VOP do Portal da Língua Portuguesa apresentam a grafia bougainvillia, considerada estrangeirismo pelo Portal. No entanto, os dicionários franceses que consultei registam apenas as grafias bougainvilléa , bougainvillier e bougainvilléa.
4. A palavra vem do antropónimo Bougainville, navegador francês do sec XVIII.
 
 
CONCLUSÕES:
Portugal (norma luso-afro-asiática)
bougainvillea (em itálico ou entre aspas*) e buganvília
Nota:
Brasil (norma brasileira)
bouganvíllea
* Se seguirmos a classificação de estrangeirismo, proposta no Portal.
Abraço.
AP
P.s. Tenha também:
a) informação linguística no http://portuguesemforma.blogspot.pt;
b) divertimento/emoções fortes no http://bloguedoincrivel.blogspot.pt: As vacas gostam de jazz?)
c) 5 dicas para conservar coentros e salsa no http://receitasedicasdiversas.blogspot.pt.