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terça-feira, 6 de novembro de 2012

.sequóia gigante ou sequoia-gigante?

Fonte desta magnífica foto: AQUI.
 
Questão 1: com ou sem hífen?
Antes de mais, não percamos de vista com que estamos a falar de uma “árvore de grande porte (chega a atingir 150 metros de altura, nas florestas da Califórnia)” (Infopedia.pt). E isso faz toda a diferença, pois, ao falarmos de uma espécie botânica, viajamos direitinhos a este extrato da Base XV do Novo Acordo Ortográfico: “Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento”.                                                                       Resposta 1: com hífen!
 
Questão 2: com ou sem acento?
Antes do Novo Acordo, este ditongo aberto, salvo raras exceções (como comboio e dezoito), era acentuado. A Base IX do NAO traz novidades: “Não se acentuam graficamente os ditongos representados por ei e oi da sílaba tónica das palavras paroxítonas”. Sendo sequoia uma palavra paroxítona (grave)… adeus acento! A regra é incómoda, pois desconfigura-nos os automatismos, mas tem uma vantagem preciosa: não tem exceções.                         Resposta 2: sem acento!
 
À exceção do VOLP da Academia Brasileira de Letras, nenhuma outra fonte consultada regista a nossa espécie botânica (que pode chegar aos 3000 anos!). Este composto (do inglês sequoia, de See-Quayah, antropónimo) devia estar registado em todos os dicionários e vocabulários com esta grafia: sequoia-gigante!
 
CONCLUSÃO:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
sequoia-gigante
Abraço.
AP
P.s.:
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.com: raia ou arraia?
 


sábado, 3 de novembro de 2012

.cão-de-guarda ou cão de guarda?

Eu mordo... muito! Minha gloriosa foto veio dAQUI.
 
Esta pergunta foi-me enviada por um ex-aluno. Segundo ele, a Base XV parece determinar o uso de hífenes em "cão-de-guarda".
1. Eis os que diz o nº 3 da Base XV: “Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento (…).
Compreende-se o desvio na interpretação, mas a locução “cão de guarda” designa apenas uma função e não uma espécie zoológica. Várias raças de cães podem ser “cães de guarda” como o pastor-alemão, o pastor-alentejano ou o serra-da-estrela. Por serem raças, os três nomes são hifenizados.
2. A resposta à pergunta poderia estar na mesma Base XV, mas no nº 6: “Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).
Não estando nas exceções, a locução perderia os hífenes. Só que... já não os tinha antes da aplicação da reforma ortográfica. Logo, vamos continuar a escrever: cão de guarda.
CONCLUSÃO:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
cão de guarda
Abraço.
AP
P.s.:
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.com: biquini, biquíni ou bikini?


ABC

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

.“sim, senhor”/”sim, senhora” com vírgula... ou talvez não!

Imagem encontrada AQUI.

A. Transcrevo extratos de uma interessante troca de argumentos, em http://linguagista.blogs.sapo.pt/279240.html, acerca da necessidade de haver ou não vírgula nesta frase antes de "senhor":
“Não está errado, não, senhor, mas dantes só se ouvia e lia necessidades fisiológicas.”
1. “(…) «senhor» não é aqui um vocativo. «Não senhor» é um reforço de «Não». Daí que se possa dizer «Não senhor» ou «Não senhora» indiferentemente do sexo do concernido, tendo das duas formas a segunda a maior «força». O mesmo vale para «Sim». (…) lembro que em inglês se diz, tranquilamente, «Yes sir!» a uma senhora. Lembro-lhes também que a interjeição espanhola «Hombre!» não significa 'homem', mas «OK», «Bom», «Se calhar tens razão».” (internauta Venâncio).
2. Uns posts mais abaixo, a internauta Eugénia apresenta dois extratos de textos onde surge “sim/não senhor”, mas sem vírgula.
a) Almeida Garrett, "Viagens na Minha Terra", cap. 5.:
Trata-se de um romance, de um drama - cuidas que vamos estudar a história, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo na natureza, colori-los das cores verdadeiras da história... isso é trabalho difícil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sobretudo um tato!...
Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.
b) Júlio Dinis, "As Pupilas do Senhor Reitor", cap. 3.:
- Muito boas tardes, tia Bernarda. Diga-me, viu passar por aqui o pequenito do José das Dornas?
- Nosso Senhor venha na companhia de Vossa Senhoria. Pois nada, não senhor, Senhor Reitor. O rapazito passava dantes por aqui todas as tardes; mas haverá coisa de quinze dias, ou três semanas, que já o não tenho visto.
[…]
- Sabe me dizer, tio Bonifácio, se o pequeno do José das Dornas passou há pouco tempo por aqui?
O velho, já meio surdo, fez repetir a pergunta em tom mais elevado, e depois dum momento de silêncio, durante a qual pareceu interrogar a memória, já perra e enfraquecida.
- Sim senhor, vi - respondeu, acenando afirmativamente com a cabeça - Vi sim senhor. Passou aqui com os bois, há meia hora.

CONCLUSÕES:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
1. Numa situação de comunicação, como fórmula de cortesia, é obrigatória a vírgula em “sim/não, senhor(a)” e “sim/não, senhores/as”, pois o segundo elemento é um vocativo.

Exemplo: “Não, senhoras, não podem sair antes do fim do turno.”
2. Quando o segundo elemento não é um verdadeiro vocativo, sendo apenas um reforço do sim/não, exprime ironia ou espanto ou é sinónimo de de “sem dúvida!”, “claro que sim!”, podemos não usar a vírgula.

Exemplos:

Sim senhor, lindo serviço!”

Extratos de “Vidas Secas” (1971), Graciliano Ramos, encontrados num artigo (AQUI):

“- Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se.

Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes.”

“Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo.”
NOTA: Nos casos acima transcritos, não é necessária a vírgula, mas, considerando que, na origem, a expressão resulta da junção advérbio+vocativo, colocá-la não será erro. Se não tem a certeza se o segundo elemento é ou não um vocativo, vá pelo seguro e “virgule”!
Leia AQUI o post de ontem no meu outro blogue: “sim, senhor OU sim, senhora?
Abraço.
AP
 
 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

.dicção, dição ou tanto faz?

Fonte da imagem AQUI.
 
Chegou-me ontem por email esta dúvida: podemos escrever dicção e dição?
A leitura a seco da alínea c), nº 1, da Base IV justifica a dúvida: “Conservam-se ou eliminam-se facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção;
O problema, já aqui referido antes, é a coexistência de vários de duplas grafias:
a) Uma grafia em Portugal (receção), outra no Brasil (recepção);
b) Uma grafia em Portugal (sumptuoso), duas no Brasil (sumptuoso e suntuoso);
c) Duas grafias em Portugal (conceptual e concetual), uma no Brasil (conceptual);
d) Duas grafias iguais para Portugal e Brasil (sector e setor).
 
Para saber onde encaixa o par dicção/dição, aconselho (como sempre) a consulta do Portal da Língua Portuguesa, seguindo este caminho de cliques (no menu à direita), depois entrar em http://www.portaldalinguaportuguesa.org:
“Vocabulário da Mudança” à “Palavras afetadas pelo AO” à letra “c”. Resultado:
Ortografia Antiga (1945)
(PORTUGAL)
Ortografia Antiga (1943)
(BRASIL)
Ortografia Nova
 
Notas
dicção
dicção, dição
dicção, dição
Na prática, a situação anterior não muda
Se “a situação anterior não muda”, em Portugal, continuamos a escrever dicção (o que é natural, pois sempre pronunciámos o primeiro “c”).
No Brasil, a consulta de um dicionário confirma que há dupla grafia para a norma brasileira. Dicionário Aulete:
1dição 2dição
 
1dição Datação: 1289 cf. IVPM
n substantivo feminino
m.q.
dicção
CONCLUSÕES:
Portugal (norma luso-afro-asiática)
dicção
Brasil (norma brasileira)
dicção e dição
Abraço.
AP
P.s.
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.pt:
Língua viva: sim, senhor ou sim, senhora?



terça-feira, 30 de outubro de 2012

.camisa-de-onze-varas mantém ou perde os hífenes?

A. Depois de ter ouvido o líder da oposição, António José Seguro, dizer hoje no parlamento português que o executivo em funções está metido numa “camisa de sete varas”, achei oportuno escolher este o assunto da mensagem de hoje. Embora não seja incorreta a versão escolhida, seria bom que alguém informasse AJS de que a camisa costuma ter mais quatro varas e que é, na verdade, uma “camisa de onze varas”, imagem mais condizente a real situação da camisa, perdão, do país…
B. Sentido
Transcrevo, com a devida vénia, um extrato de uma resposta do Ciberdúvidas: “Segundo o dicionário, «Estar ou ver-se numa situação aflitiva eis como se decifra, na linguagem comum, esta expressão. Depreende-se dela que uma "camisa-de-onze-varas" deveria ser algo incómodo, perigoso, terrível». Em seguida, acrescenta o seguinte: «Chamava-se em tempos "pano de varas" a um tecido grosseiro, uma espécie de saragoça. Era dele que se faziam as vestes com que os condenados, por exemplo, no tempo da Inquisição, eram levados para o suplício (...). Por sua vez, a "vara" era uma medida de comprimento correspondente à yard inglesa, a jarda. Em Portugal, um tanto diferentemente de em Inglaterra, uma vara correspondia a 1,1 metros. A utilização do "onze" na expressão é feita como um indefinido, destinado a evidenciar o tamanho que a camisa teria e a dar-lhe maior peso no realce do martírio (de resto, em outras expressões populares é comum o uso de numerais indefinidos como o onze, o sete, etc.).»
C. Com ou sem hífenes?
O nº 6 da Base XV, já aqui apresentado algumas vezes, dá a resposta: “Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).
Não sendo uma das exceções enumeradas na regra, a locução perde os hífenes: camisa de onze varas!

No Brasil, a Academia de Letras não regista esta locução, mas encontrei-a no Aulete e no Michaelis.

CONCLUSÃO:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
camisa de onze varas

Abraço.
AP

P.s.
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.pt:
Língua viva: sim, senhor ou sim, senhora?


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

.cão-salsicha ou cão salsicha?


O salsicha (teckel) é considerado num estudo “o cão mais feroz do mundo”. Leia AQUI.

Numa pergunta publicada hoje no Ciberdúvidas, um consulente queria saber os femininos de várias raças: são-bernardo, rafeiro-alentejano, serra-da-estrela e cão-d’água. Extrato da resposta: “Convém, no entanto, precisar o seguinte: com exceção do «são-bernardo», julgo que nenhuma das outras raças elencadas pelo estimado consulente é comummente grafada com hífen, sendo que, no caso dos «rafeiros alentejanos», será ainda de notar que a nomenclatura usada parece frequentemente variar entre a já referida e «rafeiro do Alentejo». (…) Pedro Mateus:: 29/10/2012
Tenho por Pedro Mateus a maior das considerações, mas não estou de acordo com o que diz. Passo a explicar porquê.
A. O nº 3 da Base XV do Novo Acordo Ortográfico estabelece: “Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento: abóbora-menina, couve-flor, erva-doce, feijão-verde; bênção-de-deus, erva-do-chá, ervilha-de-cheiro, fava-de-santo-inácio, bem-me-quer (nome de planta que também se dá à margarida e ao malmequer); andorinha-grande, cobra-capelo, formiga-branca; andorinha-do-mar, cobra-d'água, lesma-de-conchinha; bem-te-vi (nome de um pássaro).
Não havendo a referência a qualquer exceção (ao contrário do que acontece, por exemplo, no nº 6 da mesma Base XV, em relação às locuções), os compostos que designam espécies botânicas e zoológicas devem ser todos hifenizados? Se os objetivos do NAO são unificar e simplicar o uso da língua portuguesa, a resposta só pode ser sim.
 B. Encontrei, também no Ciberdúvidas, uma pergunta/resposta sobre o mesmo assunto. Transcrevo dois extratos.
Pergunta - “Gostaria de saber se, segundo a norma culta, a raça canina se escreve "perdigueiro-português" ou "perdigueiro português".
Resposta – “A respeito do nome em questão, não encontro registos lexicográficos, mas suponho que as tendências atrás indicadas também eram aplicáveis: perdigueiro-português, em Portugal, e perdigueiro português no Brasil.
O AO 1990 unifica estes casos, porque determina que em compostos que designam espécies botânicas e zoológicas se use sempre o hífen (Base XV, 3.º): donde, perdigueiro-português. Carlos Rocha:: 09/06/2010
Esta unificação a que alude Carlos Rocha confirma a ideia de que tem de haver sempre hífen neste tipo de compostos.
C. A aplicação desta regra é um dos elos mais fracos do Novo Acordo Ortográfico. A regra é boa e ajuda os utentes da língua, mas os dicionários e o Portal da Língua Portuguesa não a seguem com rigor. Provas? Ei-las nesta amostra, muito reduzida, mas significativa:
 
Hifenizado?
Raças de cães
Portal da Língua Portuguesa
Porto Editora
Priberam
São-bernardo
Sim
Sim
Sim
Rafeiro-alentejano*1
Não
Não
Não
Serra-da-estrela
Sim
Não
Não
Cão-d’água*1
Não
Sim
Não
Cão-salsicha
Não
Sim
Não
*1 O VOLP da Academia Brasileira de Letras regista cão-do-alentejo e cão-dágua.

NOTA FINAL:
Em relação às entradas de espécies botânicas e zoológicas, há um fosso imenso entre o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), em Portugal, e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), no Brasil. Considerando o tal objetivo de unificação do Novo Acordo, é incompreensível esta disparidade. Alguns exemplos:
1. Quanto à pimenta, enquanto no VOLP há 59 compostos, cá... apenas 7. A branca, a de caiena, a rosa ou a verde não são espécies? Para o Portal da Língua Portuguesa, não.
2. No feijão, outra goleada. Lá: 194; cá: 12. Mas, na lista nacional, não há feijão-branco, feijão-preto, feijão-ervilheiro ou feijão-encarnado, tudo espécies cultivadas e consumidas em Portugal.
3. Finalmente, o interessantíssimo caso do badejo. No VOP, não há escolha: apenas… badejo. Já no VOLP, há muito por onde escolher. Embora no Brasil haja apenas seis, é-nos apresentada uma lista com 17 espécies: badejo-alto, badejo-bicudo, badejo-branco, badejo-da-areia, badejo-da-pedra, badejo-de-lista, badejo-ferro, badejo-fogo, badejo-mira, badejo-padre, badejo-pintado, badejo-preto, badejo-quadrado, badejo-sabão, badejo-saltão, badejo-sangue e badejo-sapateiro.

Temos por cá, na Madeira, o badejo-amarelo, que o VOP desconhece… Imagem obtida AQUI.

CONCLUSÃO:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
cão-salsicha

Abraço.
AP
P.s.
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.pt:
Língua viva: ferryboat, ferribote ou tanto faz?