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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

.A avaliação dos professores e o Novo Acordo…

Imagem encontrada AQUI.

Li há pouco o “Guião de observação da dimensão científica e pedagógica” a utilizar na avaliação dos professores portugueses. Não vou fazer comentários em relação à filosofia do documento, pois considero que a avaliação do desempenho continua a não ter nem validade nem fiabilidade.
O(s) redator(es) do documento aplicaram de forma descuidada o Novo Acordo Ortográfico, misturando a Norma de 1945 com o Acordo de 1990. A par de didáticos, selecionados e atividades, encontramos “objectivos” (duas vezes) e “aspectos” (três vezes).
Vamos por partes.
A. Em relação a “objectivos”, não se compreende a opção, uma vez que a palavra não se enquadra em nenhum do três tipos de dupla grafia referidos no NAO.
B. Quanto a “aspectos”, a escorregadela poderá ter origem no ponto 1. c) da Base IV: “Conservam-se ou eliminam-se facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção; 
Não estando delimitado no extrato o âmbito de aplicação de cada uma das grafias, teria sido prudente esclarecer o assunto, tendo em conta o que está na Nota Explicativa do Acordo: “Os dicionários da língua portuguesa, que passarão a registar as duas formas em todos os casos de dupla grafia, esclarecerão, tanto quanto possível, sobre o alcance geográfico e social desta oscilação de pronúncia.
C. Que dicionário consultar? Sendo o Portal da Língua Portuguesa o órgão oficial do Novo Acordo, consultá-lo teria compensado. Clicando sucessivamente em “Vocabulário da Mudança” e “Palavras afetadas pelo AO”, tudo teria ficado clarinho como água:
Ortografia Antiga (1945)
Ortografia Antiga (1943)
Ortografia Nova
Notas
objectivo
objetivo, objectivo
objetivo, objectivo
objectivo não é usado em Portugal
aspecto
aspecto, aspeto
aspeto, aspecto
aspecto não é usado em Portugal
Nota: O Acordo vigente em Portugal datava de 1945, enquanto o Brasil seguia o Formulário de 1943.

Conclusões:
Em Portugal, as formas adequadas são aspeto e objetivo.
No Brasil, há dupla grafia aspecto/aspeto e objectivo/objetivo.

Abraço.
AP
P.s.1 No parâmetro “Pedagógico (segurança)”, lemos: “acompanhar a prestação dos alunos e proporcionar-lhe informação sobre a sua evolução”. Proporcionar a quem? Ao professor? Hum… deve ser a tal dimensão formativa do processo. Claro que é uma gralha que não devia ter acontecido.

P.s.2
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.pt:
Língua viva: site, sítio ou tanto faz?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

.louva a Deus ou louva-a-deus?

Surpreendi-a, a espiar-me, no topo de uma folha de couve-galega...
 
Pouco depois, arrogante, virou-me as costas e foi à sua vida de carnívora implacável!

A mensagem de hoje é uma revisão da matéria "dada" e surge na sequência do feliz tête-à-tête, esta tarde, na minha horta, com este fascinante insecto ortóptero.
Neste caso, o Acordo não introduz alterações e mantém o que já aplicávamos com a Norma de 1945:
Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento: abóbora-menina, couve-flor, erva-doce, feijão-verde; bênção-de-deus, erva-do-chá, ervilha-de-cheiro, fava-de-santo-inácio, bem-me-quer (nome de planta que também se dá à margarida e ao malmequer); andorinha-grande, cobra-capelo, formiga-branca; andorinha-do-mar, cobra-d'água, lesma-de-conchinha; bem-te-vi (nome de um pássaro)”. (NAO, Base V, ponto 3)

CONCLUSÃO:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
um ou uma louva-a-deus
Notas:
1. O plural é igual ao singular: louva-a-deus.
2. O Vocabulário do Portal da Língua Portuguesa, ao contrário dos dicionários, diz que a palavra é do género masculino.
Abraço.
AP

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

.As conventuais “gargantas-de-freira” resistiram ao Novo Acordo?

Como vimos ontem, o papo-seco, verdadeira instituição nacional, sobreviveu intacto ao Novo Acordo Ortográfico. Aquele hífen vai continuar a confortar-nos a alma linguístico-gastronómica.
Concentramo-nos agora nas intensas, irresistíveis, deliciosas e pouco conhecidas “gargantas-de-freira”.


A imagem borbulhante das "gargantas" veio dAQUI.
 
Citando o sítio www.docesregisonais.com: “Este doce conventual foi trazido por um espanhol, de nome Francisco Muñoz Gomes (Paco), cuja receita divulgou numa pastelaria que abriu quando, no início do séc. XX, foi viver para a Covilhã, uma cidade localizada na região centro de Portugal, junto à Serra da Estrela. Sempre fez questão de referir que a receita deste doce fora trazida de um convento e daí o nome (…). Este doce conventual caracteriza-se por ter fios de ovos enrolados, sob a forma de charuto, em capa de hóstia.
Pois é, caro leitor, as notícias são devastadoras… O Novo Acordo Ortográfico, armado até aos dentes, com a Base XV, nº 6, fez pontaria às “gargantas” indefesas e, num ápice, limpou-lhe os dois hífenes! Temos agora “gargantas de freira”. A designação continua a ser um composto. Mas assim, sem o apoio dos hífenes, apresenta-se aos nossos olhos, sensíveis e naturalmente conservadores, com o seu quê de fragilidade.
E o que justifica o impacável lifting? Isto: “Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).” NAO, Base XV.
OU SEJA: LOCUÇÃO QUE NÃO É EXCEÇÃO NÃO ESCAPA À ALTERAÇÃO!
E não é tudo! Houve uma verdadeira razia que alterou para sempre no mundo da doçaria/pastelaria.
Só nesta curta lista de exemplos perderam-se 26 hífenes: barriga de freira, umbigo de freira, toucinho do céu, pão de ló, pão de Deus, pão de leite, pão de rala, papos de anjo, queijinhos do céu, fios de ovos, trouxas de ovos, fatias da China e, com todo o respeito… maminhas de freira (iguaria já confecionada na Idade Média pelas monjas cistercienses do Convento de Celas em Coimbra).
 
Despeço-me com beijos de freira, desejando a todos bons sonhos... de freira! (Clique nos beijos e nos sonhos e não resista à tentação...)
AP
 
SABIA?
"Portugal sempre teve uma grande produção ovícola, sendo mesmo o principal produtor de ovos da Europa entre os séculos XVIII e XIX. Grande parte da clara era exportada e usada como purificador na produção de vinho branco ou ainda para engomar os fatos elegantes dos homens mais ricos, nas principais cidades do mundo ocidental. Com tantas claras a serem utilizadas para diversos fins, havia um grande excedente de gemas. Inicialmente, eram deitadas para o lixo quantidades imensas de gemas ou então dadas aos porcos.
A quantidade excedentária de gemas, aliada à abundância do açúcar que vinha das colónias portuguesas foi a inspiração para a criação de maravilhosas receitas de doces à base da gema de ovos, nas cozinhas dos conventos. Os nomes atribuídos aos doces conventuais estão, pois, relacionados com a vida conventual ou a fé católica." In  http://www.docesregionais.com/a-docaria-conventual-portuguesa (acedido em 24-10-12).


terça-feira, 23 de outubro de 2012

.O Acordo Ortográfico mexeu-nos no papo-seco?

Imagem encontrada AQUI.
 
1. Como ponto prévio, parece-me que, pela consulta dos principais dicionários brasileiros, esta designação é própria do português europeu. Tanto para designar um indíviduo janota como para falar do “pão pequeno de farinha de trigo fina. = CARCAÇA”.
2. Tranquilizo-vos de imediato: o AO não se meteu com o nosso papo-seco!
Embora o hífen tenha sido uma das áreas principais em que as novas regras intervieram, as alterações incidiram:
a) Na eliminação de centenas de hífenes nas locuções de todos os tipos (dia a dia, fim de semana, corpo a corpo, caminhos de ferro, pão de ló, etc.);
b) Na simplicação das regras de hifenização nas formações por prefixação (autoestrada, mini-investigação, anti-herói, autorretrato, etc.).
Não houve alteração das palavras compostas com unidade semântica, ou seja, na nova terminologia, os compostos morfossintáticos (a que chamávamos antes “palavras compostas por justaposição”): arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, segunda-feira, etc.
Dito isto, será que papo-saco é um destes compostos? Havendo uma unidade de sentido no casamento papo+seco, claro que é um composto morfossintático! Assim sendo, embora muito inflacionado, o papo-seco ainda é o que era… na escrita!
 CONCLUSÃO:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
papo-seco
Notas: Não é usado no Brasil, embora esteja nos dicionários e no VOLP da Academia Brasileira das Letras.
Abraço!
AP
P.s.
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.pt:
Língua viva: édredon, edredom ou edredão?

domingo, 21 de outubro de 2012

.anti-míssil ou antimíssil?

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Esta pergunta recebida por email é a prova de que o hífen é (como sempre foi) a área que mais dúvidas suscita nos utentes da língua.
Neste caso, como vamos ver, a dúvida não deriva de nenhuma alteração introduzida pelas regras do Novo Acordo Ortográfico.
A. O que diz o texto do Novo Acordo (Regras essenciais da Base XVI):
Nas formações com prefixos (…) só se emprega o hífen nos seguintes casos:
a) Nas formações em que o segundo elemento começa por h: anti-higiénico;
b) Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante
Obs.: Nas formações com o prefixo co-, este aglutina-se em geral com o segundo elemento mesmo quando iniciado por o: coobrigação, coocupante, coordenar, cooperação, cooperar, etc.
Em mais de 95% dos casos de palavras com prefixos, só há hífen quando o 2º elemento começa por h ou a letra (vogal, mas também consoante) final do prefixo é igual à que inicia o 2º elemento (o efeito espelho, já aqui referido algumas vezes).
B. O que dizia o Acordo de 1945:
Emprega-se o hífen em palavras formadas com prefixos de origem grega ou latina (…):
(…) 3.°) compostos formados com os prefixos anti, arqui e semi, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por h, i, r ou s: anti-higiénico, anti-ibérico (…)
Antimíssil já não levava hífen antes do Novo Acordo.

CONCLUSÃO:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
antimíssil
Notas: ---

Bom serão!
AP
P.s.
Ângela Merkel é: chanceler, chanchelera ou chancelerina?

sábado, 20 de outubro de 2012

.Receita 16: arroz-carolino com beterraba

Na sequência da mensagem de ontem, com a odisseia luso-brasileira do arroz, aqui fica a receita prometida...
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O facto de ter tido este ano uma boa produção de beterrabas no meu quintalão levou-me a fazer experiências na cozinha. Este arroz saiu muito bem e mereceu a aprovação da família. Apesar da cor viva da beterraba, o prato ficará com um ligeiro tom de caramelo. Quanto ao sabor, muito apetitoso!

Arroz-carolino com beterraba
Ingredientes:
.1 copo de arroz
.3 copos de água
.5 colheres de sopa bem cheias de beterraba ralada
.1 cebola
.salsa, azeite, pimenta preta (moída no momento), sal.

Preparação:
1. Pique a cebola e estufe-a no azeite.
2. Junte a beterraba, a água e deixe levantar fervura.
3. Junte o arroz, a salsa picada, a pimenta e o sal.
4. Deixe ferver em lume brando, durante 10 minutos, verificando, de vez em quando, se não está a agarrar ao fundo do tacho.
5. Desligue o lume, tape e deixe repousar durante 5 minutos.
6. Está pronto a servir!

Sugestões:
.Acompanha bem carnes grelhadas ou assadas no forno.
.Bebidas: cerveja ou um vinho branco frutado são boas opções.
 
Bon appétit!
AP
P.s.
Nova mensagem no http://portuguesemforma.blogspot.pt:
Língua viva: placard, placar ou tanto faz?

 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

.arroz-carolino ou arroz carolino?

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O arroz que dá o título à mensagem de hoje é um produto português proveniente dos estuários dos rios Sado, Tejo e Mondego. Somos um dos principais consumidores de arroz da Europa, mas apenas autossuficientes na produção do tipo carolino.
Passando da economia para a ortografia, centremo-nos na questão de hoje: arroz-carolino ou arroz carolino?
A. O que dizem as fontes em Portugal:
1. Se consultarmos os dicionários, só encontramos arroz-dos-telhados (“Planta da família das crassuláceas cujas folhas se assemelham a bagos de arroz.”) e… arroz-doce!
2. No Portal da Língua Portuguesa: arroz-da-rocha, arroz-dos-telhados (para além do arroz-de-telhado) e… arroz-doce!
3. Nas perguntas e respostas publicadas no Ciberdúvidas, quanto a arrozes, só arroz-de-leite (que perdeu os hífenes com o AO90) e… arroz-doce!
Conclui-se que o luso carolino é sem hífen? Continuemos a viagem pelas fontes…
B. O arroz nas fontes brasileiras:
1. Dicionários: Se no Michaelis o arroz está esgotado, já o Houaiss e o Aulete exibem as prateleiras bem preenchidas: do arroz-agulha ao arroz-paxarilha, somos brindados com quase 20 espécimes hifenizados. Arroz-doce, apenas o “de pagode” (que não é doçaria!). Mas temos o arroz-de-leite!
2. No VOLP da Academia Brasileira das Letras, quase duas dezenas designações hifenizadas. E reencontramos o nosso bem-amado arroz-doce!
Então as espécies de arroz hifenizam no Brasil e andam “à rédea solta” em Portugal? Prossigamos a viagem…
C. Vamos ver o que diz o texto do Novo Acordo Ortográfico:
Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento: abóbora-menina, couve-flor, erva-doce, feijão-verde; bênção-de-deus, erva-do-chá, ervilha-de-cheiro, fava-de-santo-inácio, bem-me-quer (nome de planta que também se dá à margarida e ao malmequer); andorinha-grande, cobra-capelo, formiga-branca; andorinha-do-mar, cobra-d'água, lesma-de-conchinha; bem-te-vi (nome de um pássaro). (Base XV, nº 3)
Hífen nas espécies botânicas e zoológicas? Passemos ao grand finale
D. Definição do nosso arroz no dicionário: “Carolino - designativo de uma espécie de arroz que apresenta diversos formatos e um grande poder de absorção dos sabores, tendo geralmente aparência pastosa quando cozinhado.” (http://www.infopedia.pt)
É uma espécie? Eureka! Então, de-fi-ni-ti-va-men-te: arroz-carolino!
 
CONCLUSÃO:
Portugal (norma luso-afro-asiática) e Brasil (norma brasileira)
arroz-carolino
Notas: O plural de arroz é arrozes.
Abraço.
AP
P.s.: Fica prometida para amanhã uma receita deliciosa de arroz-carolino com… beterraba!