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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Em bom português: mau-estar, mal-estar ou ambas?

Desta vez, trago-vos um dilema simples de resolver, o que é uma raridade na língua portuguesa...
Para a resposta, transcrevo a mensagem publicada, em 5/05/2009, no blogue (que recomendo) http://linguamodadoisec.blogspot.pt:
Mal-estar ou mau-estar?
Quando sentimos uma indisposição ou um incómodo, devemos dizer que sentimos um mal-estar ou um mau-estar?
Por hipótese, a palavra estar poderia coocorrer com o adjectivo mau, uma vez que é, neste composto, um nome, formado por conversão a partir do verbo estar.
Porém, a expressão consagrada pelos dicionários é mal-estar, palavra composta pelo advérbio mal e pelo nome estar, que ainda conserva traços verbais (ou seja, invertendo os elementos, teríamos: «estar mal»).
Mas há um argumento ainda mais forte! Reparem que a expressão oposta é bem-estar e não bom-estar!
Por S. Duarte às 11:37
Boa semana!
AP
Nota: Também para o Brasil, a norma determina que mal-estar é a forma correta. E o plural, qual é? Ei-lo: mal-estares!

domingo, 15 de julho de 2012

Em bom português: safari ou safári?

Já tinham saudades de um caldinho à moda da língua portuguesa? Então, trago-vos um belo safari/safári (do árabe sáfara, «viajar»). Sendo uma viagem atribulada, vamos por etapas:

1. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa e o Grande Dicionário Língua Portuguesa, da Porto Editora, dão-nos safari, enquanto o Dicionário Verbo se fica por safári.
2. Nos dicionários online, enquanto a Priberam apresenta as duas formas safári/safari, a Porto Editora regista apenas safári.
3. O Portal da Língua Portuguesa regista apenas safari, enquanto a Academia Brasileira das Letras apresenta unicamente safári.
4. O FLIP, na rubrica “dúvidas linguísticas”, dando conta da oscilação de perspetivas referida nos pontos anteriores, centra-se no Dicionário Houaiss como sendo aquele que tem a análise mais adequada: “Apesar de ser corrente a pronúncia desta palavra como grave (e muito rara a pronúncia como palavra aguda), dos dicionários publicados em Portugal, apenas o Dicionário Houaiss (Lisboa: Círculo de Leitores, 2002) regista a forma safári *1 (sendo a transcrição fonética [sa'fari], com acento tónico na penúltima sílaba), registando também a forma safari, mas como estrangeirismo. Esta opção parece ser a que mais se adequa à descrição do uso da palavra. (Helena Figueira, 26-Abr-2007).”
*1- Não é apenas o Houaiss a registar safári, uma vez que já encontramos essa versão na edição de 2006 do Dicionário Verbo que tenho cá em casa.
 
 
CONCLUSÕES:
1. Com base na Academia Brasileira das Letras e em todos os dicionários online (norma brasileira) que consultei, há apenas uma grafia para o Brasil: safári (palavra grave/paroxítona).
2. Para a nossa norma, safari (palavra aguda/oxítona) parece ser a versão a preferir. No entanto, a opinião da Priberam e do Dicionário Verbo levam-me a aceitar para o português europeu safari e safári.
Bom resto resto de domingo para todos!
AP

sábado, 14 de julho de 2012

.organograma ou organigrama?

Mais um caso a provar que a língua portuguesa não é uma "pera doce"...

1. O Ciberdúvidas, embora referindo que  organigrama (adaptação do francês organigramme) está registado em várias fontes, defende que organograma é a forma recomendada e a que mais se aproxima dos elementos gregos que compõem ['órgano(n)', «órgão» + 'grama', «escrito», «registo»].
2. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora) e o Dicionário Verbo da Língua Portuguesa apresentam as duas palavras como sinónimas.
3. Tanto o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa como o Portal da Língua Portuguesa apresentam organigrama como fazendo parte da norma luso-africana, associando organograma à norma brasileira.
4. O Vocabulário da Academia Brasileira das Letras, na mesma linha da nossa Academia e do Portal, só regista... organograma!

Mas que grande imbróglio!

CONCLUSÃO: Conclusão propriamente não há. No entanto, a divergência de perspetivas de fontes tão idóneas como as que acabei de referir legitimam que se possa dizer organograma ou organigrama.

Como ou sem organograma/organigrama, continuação de bom fim de semana!
AP

Novo Acordo: texto dedicado a Vasco da Graça Moura...

Transcrevo, com a devida vénia, a mensagem publicada no blogue suite de ideias em 21/2/12:


Este artigo foi escrito por Henrique Monteiro no Atual de sábado passado.

Dedicou-o a Vasco Graça Moura e a todos os opositores do Acordo Ortográfico. (...)

A minha adesão ao Acordo Ortográfico (AO) tem a ver simultaneamente com confiança e humildade. Confio na sabedoria de quem o fez (não na sua infalibidade) e sou suficientemente humilde para reconhecer que muitos aspetos que dizem respeito à etimologia e à fonética, tais como outros menos relevantes para este caso, me escapam. Além da confiança e respeito por nomes como Lindley Cintra ou António Houaiss, de que não vejo muita gente comungar, mas antes desprezar, dediquei eu próprio algum tempo ao assunto. E, uma vez que faço da escrita a minha profissão há mais de 30 anos, penso ter algo a dizer.
Rodrigues Lapa, que foi um mestre da língua portuguesa, filólogo distinto, sustinha que as mudanças de ortografia eram sempre violentas. Esta asserção é hoje inteiramente justificada pela quantidade de pessoas que apenas se opõem ao Acordo "porque sim" - sem quaisquer argumentos.
A verdade é que ninguém se conforma, depois de ter sido obrigado a pôr um "p" em ótimo, agora lhe dizerem que esse "p" (no qual nunca encontrou utilidade) não faz falta. Há quem argumente com esse pai tirano, o latim, e com a etimologia da palavra optimus. A palavra sem o "p" perderá a identidade. Alguns enxofram-se e dizem que lhes matamos o português! Mas qual português, Santo Deus (ou melhor diria Sancto Deus?). O português do assucar ou do açúcar? O de Viseu ou Vizeu?
"Philosophia", "pharmacia" ou "phleugma" também terão perdido essa identidade (para filosofia, farmácia ou fleuma)? Ora, o facto de o "phi" grego deixar de se distinguir do "f" na grafia não me parece ter provocado dano ao idioma. Mas há, insistem, o problema do fechamento das vogais. Ou seja, a mania portuguesa (que não brasileira, angolana ou moçambicana) de comer as vogais. Este argumento é o que afirma que passaremos" a dizer "aspêto" em vez de "aspéto", uma vez que a retirada do c fecha a vogal. Pode parecer um argumento poderoso, mas não é. Não dizemos "Mêlo" desde que o apelido deixou de se escrever "Mello" ("Vasconcellos" ou "Sampayo" também se dizem do mesmo modo).
Reparem - e repare o execelente poeta e tradutor, a quem o texto é dedicado - que a forma de acentuar nada ou pouco tem a ver com o modo de escrever, mas sim com o modo de ouvir. Logo ele, que nasceu na Foz do Douro, bastava-lhe andar até à Ribeira para ouvir dizer "Puârto" e muitas outras coisas que foram morrendo com a voragem unificadora fonética da televisão. No norte dizia-se "baca" sendo a palavra com "v"; e o macho da "baca" era "voi" apesar de lá estar um"b". Mais estranho: em Lisboa sempre se disse "contiúdo" apesar do "e", ao contrário de Coimbra e Porto onde se diz "contêúdo". Em Lisboa, "ôito", "dezóito", "vinte e ôito"; no Porto, "óito", "dezôito" e "vinte e óito". E sempre se escreveu da mesma forma... Aliás, segundo a professora Maria Helena da Rocha Pereira, o fechamento das vogais pré-tónicas começou em Portugal em finais do século XVII ou princípios do século XVIII - ainda não havia acordos nenhuns.
Agora, se me perguntarem por que razão em 1911 "pae" passou a "pai" e "mãi" passou a "mãe" (como até hoje se escreve) não sei dizer, do mesmo modo que me irrita o "espetador" no acordo atual. Mas a propósito daqueles que juram que "espetador" não distingue o que assiste a um espetáculo de um picador de gelo, refiro a frase: senti os pelos eriçarem-se pelos braços. E eis que toda a gente compreende onde está o quê. Ainda sobre as confusões e fechamentos e aberturas de vogais, vejam a frase: "Gosto particularmente do teu gosto" - quando a leem dizem (pelo menos os cultos, como o presidente do CCB) "gósto" e "gôsto" instintivamente. Como em "Faz força e força aquela porta" sabem que primeiro é "fôrça" e depois "fórça".
Permitam-me, ainda, referir que, durante a minha vida, "sòzinho" ou "sòmente" perderam o acento. Pois bem, nunca notei qualquer inflexão (para "suzinho" ou "sumente") no modo de pronunciar aquelas e muitas outras palavras (advérbios de modo e diminutivos) a que aconteceu o mesmo.
Há ainda os que afirmam não gostar do acordo por razões estéticas. É aceitável. Mas a ortografia, sendo uma representação, não pode agradar a todos, e menos ainda reproduzir a pluralidade (e até pessoalidade) de pronúncias e modos de dizer. Exigi-lo seria como pedir a um pintor que pintasse o céu não como ele o vê, mas como cada um de nós, pessoalmente, o vê. Tarefa impossível.
Posto isto, o AO é importante porque aproxima da fonética uma série de palavras. E fá-lo, pela primeira vez, em função de um idioma que, sendo português, é também propriedade, matriz e identidade de outros povos e de outras latitudes. Cedemos? Não sei, nem me importa. Não quero uma língua para me distinguir do Brasil. Prefiro uma que me aproxime. E quem diz Brasil, que tem 200 milhões de falantes, diz naturalmente Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Timor.
Respeito o argumento de que a língua deve evoluir por ela, sem intervenção governamental. Creio, no entanto, que deve haver uma única e determinada ortografia nos manuais escolares e nos documentos. Ainda que cada escritor (como cada editora ou jornal) prefira o seu modo de escrever (Pessoa nunca respeitou o acordo de 1911), a ortografia escolar e oficial não poder ser espontânea nem à vontade do freguês. Acrescento que, curiosamente, nenhum de nós (ou quase) lê Pessoa (nem Eça, nem Camilo, nem sequer Aquilino ou Nemésio) na ortografia que os autores escolheram, assim como, apesar de usarmos a língua de Camões, há muito que não grafamos as palavras como ele ("Armas & os barões" ou "Occidental praya"). Quero com isto dizer que um jornal, uma editora, um escritor ou um Centro Cultural de Belém que não adira ao AO, ver-se-á, a breve prazo, a braços com uma escrita anacrónica... E um dia, tal como Pessoa ou Camões, será lido com a ortografia que então estiver em vigor.
Eis porque fui um dos entusiastas, na altura como diretor do Expresso, da utilização do AO nas publicações do Grupo Impresa. Eis porque não aceito que uma lei discutida durante mais de 20 anos seja constantemente colocada em causa. Ou que os opositores do AO esqueçam sistematicamente que a forma como escrevem resulta também de um AO imposto por lei.
Não vale a pena pensarmos que cada geração tem a pureza da grafia. O que pensar de Marco Túlio Tiro que, para poder transcrever os discursos de Cícero, abreviou diversas palavras com sinalética que até hoje usamos (etc., v.g., e.g.). Talvez o mesmo que muitos pensam das abreviaturas feitas pelos jovens nos telemóveis e redes sociais. E, no entanto, é a grafia que de estar ao serviço da comunicação - não o contrário.
Acirrar ânimos, insultar adversários, fazer juramentos solenes em torno de uma simples representação do nosso idioma faz-me lembrar aquele padre tio de Brás Cubas que o genial Machado de Assis (e não por acaso cito um autor brasileiro que devia ser mais lido em Portugal) descreve assim: "Não era homem que visse a parte substancial da igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepolizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia do que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos". (E aqui, a palavra infração segue o modo como ele a escreveu ... em 1881).

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Receita 13: migas de couve-flor

Migas de couve-flor
Ingredientes:
.couve-flor (1 couve pequena por cada 2 a 3 pessoas)
.azeite (3 colheres de sopa por couve), dentes de alho grandes (3 por couve)
.1 bom molho de coentros
.sal e pimenta preta

Preparação
1. Lave e corte a couve em quartos e ponha-a em água a ferver com sal durante 15 minutos (contados a partir do momento em que volte a levantar fervura).
2. Estando a couve bem cozida e muito bem escorrida a água, esmague-a com um garfo.
3. Num tacho, leve ao lume o azeite, a pimenta e os alhos (esmagados em papa) durante 2 minutos.
4. Junte a couve esmagada, os coentros, envolva tudo e deixe apurar durante mais 3 ou 4 minutos.

Ideias para servir:
Acompanha bem fritos, grelhados ou assados (peixe, carne ou rissóis, pastéis de bacalhau, croquetes, etc.).

Bon appétit!
Voltarei amanhã.

AP

Guiné Equatorial na CPLP? Que interessante...

Guiné Equatorial «não fez progressos suficientes» para aderir à CPLP

Paulo Portas manifestou-se contra adesão plena à comunidade lusófona na próxima cimeira, a 20 de julho.

Leia o artigo completo AQUI.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

.catorze ou quatorze?

Fonte da imagem: AQUI.
 
A. À pergunta de um consulente português sobre o uso de catorze e quatorze, foi dada há três dias, no Ciberdúvidas, a resposta que passo a transcrever.
O Vocabulário Ortográfico do Português, do ILTEC, regista a forma catorze, assinalando a variante quatorze (Brasil).
Por sua vez, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Porto Editora, atesta as duas formas: catorze e quatorze, sem qualquer indicação de que se trataria de variantes do português europeu e/ou do Brasil.
Por seu lado, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, contempla, também, as duas formas: catorze e quatorze.
Portanto, como não há qualquer indicação contrária no Acordo Ortográfico de 1990, as duas grafias estão corretas. No entanto, em Portugal prefere-se tradicionalmente catorze, e no Brasil o uso favorece a mesma grafia, conforme comenta Maria Helena de Moura Neves, no Guia de Uso do Português (São Paulo, Editora Unesp, 2003): «[Catorze e quatorze] [s]ão formas variantes, e quatorze é bem menos usual [...].» (Eunice Marta :: 17/12/2012)
B. No mesmo Ciberdúvidas, encontramos esta resposta de Peixoto da Fonseca, em 2004:
Quatorze é a forma predominante no Brasil, por influência de quatro, tanto na escrita como na pronúncia. Em Portugal só existe catorze, que representa a evolução do latim quattuordecim, sem o retrocesso operado no Brasil (...). (F. V. Peixoto da Fonseca :: 16/07/2004)
C. Consultando o Dicionário de Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, edição de 1913, podemos ler: “*Catorze*, adj. O mesmo ou melhor que quatorze.
D. Para o Brasil, apesar da posição de Maria Helena Moura Neves, referida em A., a generalidade das fontes que consultei considera ambas as formas corretas, pondo-as no mesmo patamar.

Faço ao exposto, reformulei a mensagem publicada em julho passado (em que adotava um ponto de vista próximo do que está expresso na resposta de Peixoto da Fonseca), apresentando agora uma perspetiva menos restritiva.

CONCLUSÕES:
Portugal (norma luso-afro-asiática)
 catorze é a forma mais comum, correspondendo à evolução a partir do latim. Considerando o que diz o Portal da Língua Portuguesa, não é aconselhável o recurso à forma quatorze.
Brasil (norma brasileira) 
catorze e quatorze estão ao mesmo nível, podendo o falante escolher a forma que quiser usar.

Nota: Optando por quatorze, o u deve ser pronunciado: “kuatorze”.



Abraço!
AP