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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Sobre as críticas mais recentes ao Acordo Ortográfico

Mais uma vez, com a devida vénia, transcrevo um documento do excelente Ciberdúvidas. Faço-o porque subscrevo o conteúdo e aprecio a clareza do discurso de D'Silvas Fialho.  
Bom fim de semana para todos! De preferência, com sol na eira e chuva no nabal...
Vosso,
ProfAP

Sobre as críticas mais recentes ao Acordo Ortográfico

D´Silvas Filho**

Concordo que o Acordo Ortográfico (AO) de 1990 precisa de ser aperfeiçoado. Na adaptação ao novo AO do Prontuário da Texto em elaboração, concluí que há excesso de incoerências, decisões não suficientemente sedimentadas e, até, erros técnicos no texto.
A verdade, porém, é que o trabalho assinado em 1990 consegue, numa primeira aproximação, o objetivo fundamental pretendido de se ter uma base de partida para a elaboração dum dicionário comum para toda a lusofonia (4.4 das Notas Explicativas). Deve também não se esquecer o processo evolutivo próprio da língua. A Reforma de 1911, profundamente estudada, teve alterações anos depois; a Norma de 1945, muito bem estruturada para o português europeu, foi posteriormente alterada nalguns pormenores.
Concordo, e sempre tenho defendido, que só teremos uma língua comum quando houver um Vocabulário Comum, base para que se realize o 4.4 acima indicado (implícito, portanto, no espírito do Acordo Ortográfico de 1990). O que aconteceu foi que a redação pouco clara do 2.º do Preâmbulo do AO permitiu a interpretação de que o Vocabulário Comum nele referido se destinava exclusivamente à terminologia científica e técnica, nada impedindo, portanto, que nos termos comuns o Acordo entrasse em vigor sem tal Vocabulário exigido. Foi com este pretexto que o Brasil decidiu avançar com o novo AO depois de ter conseguido o apoio de São Tomé e de Cabo Verde. A sua enorme projeção de BRIC estava a exigir já uma língua universal. Lembremos que podia ter decidido designá-la por língua brasileira.
Eu compreendi o dilema brasileiro num simpósio sobre a língua em que estive com o Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras. Pedi só que esperassem por nós, e muito grato fiquei por os brasileiros desejarem continuar a chamar portuguesa à sua língua. Depois disso, ante a nossa hesitação, o Brasil não pôde esperar mais e acabou por surpreender rapidamente com um Vocabulário monumental de 350 000 entradas para o novo AO, pondo simultaneamente em vigor o Acordo em 2009 (com uma moratória de só 2 anos...). Hoje penso que, se o não tivesse feito, talvez o AO ainda estivesse na gaveta, onde permaneceu em jazida quase 20 anos...
Desde essa altura, no clamor do nosso atraso, de que fui um dos mais inconformados, apareceram finalmente publicados também vocabulários satisfatórios em Portugal. As últimas notícias indicam-nos que o IILP pensa ter um Vocabulário Comum em 2014. Como terá muitas variantes do universo da língua, o trabalho não será fácil. Penso que o país que não colaborar nesse Vocabulário não se poderá depois queixar de ficar à margem da língua comum.
Não concordo que se diga que o novo AO ainda não está em vigor em Portugal. Está nos termos do Aviso 255/2010 de 13 de setembro publicado no Diário da República, 1.ª série de 2010-09-17, com uma moratória prevista de seis anos, nas quais as duas grafias (1945 e 1990) podem coabitar.
Ora é esta moratória que permite a liberdade cívica daqueles que escrevem ainda com a antiga ortografia. Mas essa liberdade acabará passado o prazo da moratória. E esses não tenham dúvidas: não vão conseguir travar um processo que a consciência coletiva do país sente ser necessário para a defesa planetária da língua portuguesa.
Não concordo que se considere sem valor, agora, a decisão do Governo anterior em pôr já em vigor nas escolas e na administração o novo AO. O atual Governo não decidiu o contrário, e, portanto, não é legítimo civicamente ignorar essa determinação. Com a ressalva de que enquanto não houver um Vocabulário Comum são aceitáveis sugestões para o aperfeiçoamento desse Vocabulário.
Não concordo que, sob o pretexto de discordância com algumas decisões do ILTEC, se menospreze o imenso trabalho que apresenta com seu VOP gracioso. Eu próprio tenho lamentado que o ILTEC siga a linha geral dos outros Vocabulários (e que vem do projeto recusado e 1986) de suprimir sempre os hífenes nos compostos ligados por preposição (excluindo espécies), mesmo nos casos aparentes (figurado, por exemplo). Mas afora este pormenor, devido ao qual me desliguei de consultor do projeto, devo reconhecer que o trabalho é altamente meritório, com elevado valor linguístico e respeitador da índole da língua (não posso dizer isto em todos os outros vocabulários). Sobretudo, no estudo aprofundado do novo AO, a que tenho sido obrigado para a adaptação do Prontuário da Texto, concluí que a minha referência de base é mesmo o ILTEC, em particular porque me ajuda no critério que adotei de me aproximar já da língua comum. Estou tanto à vontade para o elogiar hoje, como estive no passado para o criticar.
A profusão de variantes com a consoante etimológica, nas sequências, que o Brasil conserva e o ILTEC regista, aparentemente sem interesse para quem deseja o país subordinado ao critério rígido fonético, são para mim uma grata libertação dessa amarra à "foneticofilia". E não se trata de saudosismo ou xenofobia, mas do reconhecimento de que a etimologia tem virtudes. Por um lado, permite, na diferenciação gráfica, desfazer homofonias suscetíveis de ambiguidades (ex.: óptica/ótica, corrector/corretor, espectador/espetador, etc., etc.). Por outro, altamente significativo e que parece não ter sido devidamente ponderado no Acordo de 1990, a etimologia une os falantes na sua diferente prolação, ao passo que o critério fonético cego corre o risco de paradoxalmente os dividir ainda mais na escrita, contrariando o objetivo fundamental do novo AO. Parafraseando uma frase bíblica, a norma deve servir a língua e não a língua servir a norma.
13/04/2012

**Sobre o Autor: Consultor do Ciberdúvidas, membro do Conselho Científico da Sociedade da Língua Portuguesa e autor do Prontuário Universal, Erros Corrigidos de Português, da Texto Editora.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Acordo: a propósito do acento perdido em "para" (v. parar)

A Base IX (nos pontos 6, 7 e 8) fez desaparecer vários acentos distintivos de palavras graves. Se a extinção da maior parte desses é relativamente consensual, a eliminação do acento que usávamos em “para” (verbo parar) para evitar a confusão com a preposição “para” provoca grande “azia intelectual”, achando muitos falantes que tal alteração não tem sentido. Esta resistência deriva da pronúncia bem distinta das duas palavras (agora homógrafas).
No entanto, se recuarmos no tempo e formos ler o texto do AO45, encontramos um bom número de homógrafos heterofónicos que perderam os seus acentos distintivos.
Vejam alguns exemplos apresentados na Base 22 do texto de 1945:
acerto (nome) - acerto (v. acertar) / cerca (nome) – cerca (v. cercar) / colher (nome) - colher (v. colher) / doutores (nome) – doutores (v. doutorar) / esse (determinante ou pronome) – esse (nome da letra s) / este (determinante ou pronome) – este (ponto cardeal) / fora (advérbio, interjeição ou nome) - fora (v. ser) / fosse (v. ser) – fosse (v. fossar) / piloto (nome) – piloto (v. pilotar) / transtorno (nome) – transtorno (v. transtornar) / coro (nome) – coro (v. corar).
Vosso,
ProfAP.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Acordo: Opinião sobre um novo guia (Univ. Coimbra)

Já aqui defendi a opinião de que não vale a pena gastar dinheiro em guias, uma vez que os gratuitos disponibilizados no sítio da DGIDC têm qualidade superior à generalidade dos que estão no mercado.
O guia que adquiri recentemente (Acordo Ortográfico 2011 – O Que Mudou no Português Europeu, de Isabel Lopes e Ana Teresa Peixinho), publicado mesmo no final de 2011, vem dar-me razão. Considerando o currículo das autoras e o prestígio da instituição que o sustenta (Universidade de Coimbra), estava com expetativas elevadas. Afinal, uma deceção, pelas razões passo a expor.

1. Relativamente aos pontos cardeais, diz-se (pág. 24) que se mantém a maiúscula «quando se referem a regiões».
Observação: Ao contrário do AO45, o texto não refere regiões. Parece-me ser excessivamente simplista esta interpretação do «empregados absolutamente». Por outro lado, ela não explica que devamos escrever «Vou para o Norte» e «Vou para o norte de Portugal».
2. No uso facultativo de maiúsculas e minúsculas (pág. 25), apresenta-se o exemplo Praça da República vs. praça da república.
Observação: O NAO refere a opcionalidade na “categorização” do logradouro, pelo que a palavra República tem de manter a maiúscula, como acontece neste exemplo dado no texto do Acordo: Largo ou largo dos Leões.
3. Nas duplas grafias (pág. 28), para o português europeu é apresentada uma lista de exemplos que, segundo as autoras, são casos registados no VOP.
Observação: Tive dúvidas nalguns casos e fui ao VOP. Conclusão: cético, sectorização, vetor e sumptuoso (apresentados como situação de dupla grafia) têm uma única grafia em Portugal.
4. Em relação às situações de salvaguarda do c e p não pronunciado, diz-se (pág. 29) que «As consoantes c e p conservam-se também nos topónimos, antropónimos e nomes de empresas, sociedades, marcas ou títulos, para ressalva de direitos» e remete-se para a Base XXI do Acordo.
Observação: Este parece-me ser um lapso óbvio ou um erro grosseiro de interpretação, pois a Base XXI não inclui os topónimos.
5. Sobre o uso facultativo do acento circunflexo, apresenta-se (pág. 32) a possibilidade de usar fôrma e forma.
Observação: Tratando-se de um guia para o português europeu, é estranha esta “involução”, uma vez que na norma luso-africana este acento já não existia. Parece-me que esta facultatividade tem a ver com a norma brasileira.
6. Sobre o hífen (pág. 34), dá-se como exemplo de alteração sub-aquático (antes do AO) para subaquático (depois do AO).
Observação: Já escrevíamos subaquático, de acordo com o art. 7.º da Base 27 da Convenção de 45 que determinava o uso de hífen com o prefixo sub apenas «quando o segundo elemento começa por b, por h (…) ou por um r».
7. Também sobre o hífen (pág. 35) são dados como exemplos de alterações, entre outros, mini-saia vs. minissaia e bio-ritmo vs. biorrritmo.
Observação: Se por um lado minissaia já era admitido, biorritmo não era hifenizado.

Antes de publicar esta mensagem, enviei a apreciação ao Ciberdúvidas para saber a opinião de um dos seus especialistas. Pode ver a resposta AQUI.

A resposta dada pelo Ciberdúvidas evidencia o nó górdio em que, em certos casos, as duplas grafias se transformaram. Pretendendo o Acordo simplicar e uniformizar, não se compreende esta dança assíncrona entre a Porto Editora e a Priberam e o Portal da Língua Portuguesa e, dentro deste, entre o VOP e o Lince!

Abraço a todos!
ProfAP
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sábado, 14 de abril de 2012

Receita nº 12: Marmelada de laranja

 Foto tirada cá em casa (sob o olhar guloso dos brincos-de-princesa!)

Depois de várias tentativas, partilho uma receita original e divinal para quem, como eu, aprecia citrinos. Dá trabalho, rende pouco, mas a textura e o sabor compensam.
Marmelada de laranja
A. Ingredientes (para dois frascos pequenos)
.4 laranjas
.1 limão
.açúcar amarelo e água
 B. Preparação
1. Esprema o limão e guarde o sumo no frigorífico num recipiente fechado.
2. Corte as laranjas em rodelas finas para dentro de uma vasilha, não desperdiçando nada do sumo que for escorrendo.
3. Junto às laranjas (com os caroços) as metades do limão espremido (cortadas em pedaços pequenos) e os caroços do limão.
4. Junte água até cobrir as laranjas e a casca do limão e deixe a vasilha no frio de um dia para o outro.
5. No dia seguinte, junte o sumo do limão ao preparado e leve ao lume num tacho.
6. Quando levantar fervura, deixe cozer, mexendo de vez em quando.
7. Depois de ferver 1 hora, escorra a polpa num passador, espremendo-a bem.
8. Meça o líquido obtido (já sem a polpa) e junte o peso de açúcar equivalente ao líquido (500 gramas para 5 dl, 400 gramas para 4 dl e assim sucessivamente, podendo "roubar" 10% no açúcar).
9. Leve de novo ao lume. Quando levantar fervura, reduza a chama para o mínimo e vá mexendo sempre para não agarrar durante 30 a 45 minutos em função da consistência que deseja para a sua marmelada. Na imagem acima reproduzida, a marmelada que está no frasco ferveu 35 minutos, enquanto que a que está papel vegetal esteve ao lume mais 10 minutos, tendo ficado mais rija.
C. Como consumir esta pequena maravilha
Numa torrada com chá, numa miniatura de bolacha de água e sal a acompanhar o café ou... às tiras, cubos, etc., como se consome uma amêndoa ou um bombom.
Resta-me desejar a todos um bom fim de semana cheio de tranquilidade e doçuras que alimentem o corpo e a alma!
Vosso,
ProfAPP.s.: Já repararam que no texto da receita não há uma única palavra alterada pelo Acordo?

Mensagem para Faro!

Olá, colegas da Escola Secundária Pinheiro e Rosa, em Faro.
Começando por agradecer a forma simpática como me receberam e a generosidade na apreciação do meu trabalho, aqui transcrevo, como prometido, algumas informações do powerpoint que usei na sessão.
Na expetativa de um reencontro, fico ao vosso dispor.
ProfAP
1. Nota aposta ao slide nº 1 sobre a reintrodução das letras k, w e y no alfabeto:
o K é sempre consoante;
o Y é sempre vogal (não entrando na distinção entre vogais e semivogais);
o W é  consoante quando pronunciado v (Volkswagen) e vogal quando pronunciado u (windsurf, williams, windows).
2. Nota aposta ao slide nº 9 sobre a hifenização dos advérbios bem e mal:
Cuidado com o mal!
u    bem-humorado vs mal-humorado
u    bem-educado vs mal-educado
                                                                   MAS…
u    bem-vindo vs malvindo
u    bem-criado vs malcriado
u    bem-posto vs malposto
u    bem-comportado vs malcomportado
3. Nota aposta ao slide nº 13 sobre a regra que determina que quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, retira-se o hífen e duplica-se o r/s:
Já escrevíamos: biorritmo, multirrisco, macrorrizo, radiorrastreio, microrregião, biossíntese, biossatélite, nanossomia, megassonda, fotossíntese e morfossintático.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

30 000 visitas!

Entre ontem e hoje, o contador de visitas registou o número 30000! O maior fluxo provém de Portugal, mas tem havido, nos últimos meses, um acréscimo significativo de visitantes do Brasil e sobretudo dos Estados Unidos. Serão provavelmente compatriotas emigrados.Thank you! Agradeço a confiança e terei todo o prazer em continuar a receber-vos com regras, ideias, comentários, sugestões e receitas deliciosas! Para todos, aquele abraço! ;) profAP

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Acordo: esclarecimento de dúvidas

Antes de mais, um agradecimento aos colegas “profes” do EBI do Carregado pela simpatia na receção. Os “cookies” de chocolate e o moscatel de produção particular estavam excelentes!
Relativamente a uma questão que me foi colocada na sessão em relação a duplas grafias na palavra "inseto" e respetivos derivados, confirmo e alargo a informação que dei.
1. “Inseto” tem uma única grafia, não estando validada a pronúncia “insecto”. Confirmei em dicionários de referência que o “c” não aparece como pronunciado na transcrição fonética. Também “inseticida” tem uma única grafia. Para ambos os casos, há uma dupla grafia, mas apenas para a norma do Brasil.
2. Como podemos ver no anexo do “Guia Expresso para a Mudança” (disponível na banda lateral direita do blogue na secção “OS GUIAS CÁ DA CASA!”), há duplas grafias nas seguintes palavras da família de “inseto”: insectífero/insetífero; insectiforme/insetiforme; insectívoro/insetívoro; insectófilo/insetófilo; insectologia/insetologia; insectológico/insetológico; insectologista/insetologista.
3. Nas duplas grafias, dado o seu elevado número e os casos em que a lógica “é uma batata”, não devemos improvisar. Em cada de dúvida, há que confirmar sempre no sítio recomendado: Portal da Língua Portuguesa (no “Vocabulário da Mudança”). No final do Guia Expresso referido no ponto 2. desta mensagem,  também tem acesso à lista completa das 233 duplas grafias que o Portal apresenta para a norma luso-africana.
Abraço a todos.
ProfAP