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sábado, 28 de abril de 2012

Em bom português: porque OU por que?

Porque ou por que?
Agradecendo a boa disposição e simpatia com que fui recebido pelos colegas "profes" na sessão sobre o Acordo em Póvoa do Lanhoso, aqui ficam as prometidas dicas para fazer face ao dilema na escolha entre porque/por que.

1. Explicação técnica:
Porque (advérbio interrogativo: “Porque tens tanta agressividade dentro de ti?”; conjunção causal “Fui-me embora porque estava cheio de fome!”).
Por que (preposição por + interrogativo ou relativo que).

2. Dicas para saber optar corretamente:

A.
Teste
Escolha acertada
Exemplos
A. Se for substituível por
por qual
OU
pelo/a(s) qual/quais
POR QUE

.Por que (= por qual) razão não me telefonaste?
.Eu conheço o motivo por que (= pelo qual) não me telefonaste!
B. Sendo substituível por porque é que
OU
pois
PORQUE
.Porque(= porque é que) não vens comigo?
.Não vens comigo porque (= pois) não te apetece.
B.
1. Tratando-se de uma pergunta (Porque estás com medo?), resposta (Estou com medo porque não sei o que vai acontecer.) ou explicação (Tenho de ir já, porque estou atrasada!), escreve-se PORQUE.
2. Na generalidade das outras situações, usa-se POR QUE.
Nota: Na norma brasileira, usa-se sempre por que nas perguntas.

Aprofunde conhecimentos em:
http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=19733
http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=25695
http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=3157
http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=193

Bom fim de semana!
ProfAP

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Academia das Ciências quer aperfeiçoar o Acordo Ortográfico!


ENTREVISTA ao jornal Público (12-12-2016)

“Nós consideramos que o normal é o respeito pelas ortografias nacionais”
O presidente da Academia das Ciências de Lisboa, Artur Anselmo, anuncia para Janeiro um documento chamado Subsídios para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico. É o retomar da polémica pelo lado científico, num campo em que "a política é incompetente".

Presidente da Academia das Ciências de Lisboa até finais de 2018, filólogo, professor, autor do recente História do Livro e Filologia (Ed. Guimarães, 2015), Artur Anselmo é, aos 76 anos, impulsionador de um movimento de rejuvenescimento da Academia, onde acabam de ser admitidos, na 1.ª secção da Classe de Letras, Manuel Alegre, Helder Macedo (efectivos), António Lobo Antunes e José Manuel Mendes (correspondentes). No dia 15 de Dezembro, às 15h, o ano académico encerrará com uma conferência do general Ramalho Eanes, intitulada Portugal no Tempo e no Mundo. Para 2017, anuncia-se uma proposta de revisão do acordo ortográfico de 1990 [AO90] sob o prisma da ciência, em detrimento da política. Artur Anselmo explica as razões de tal iniciativa.

Um ano depois do colóquio Ortografia e Bom Senso, anuncia-se um dicionário para 2018 e um “aperfeiçoamento” do acordo ortográfico. Isso significa o quê?
Muitos confrades de ciências estão a participar nos trabalhos do Dicionário. Na área da Química, da Biologia, da Botânica, das ciências da Terra, das ciências do Espaço. Isso não aconteceu em 2001, porque o dicionário foi feito, em boa parte, sob a direcção do confrade João Malaca Casteleiro, por licenciados, professores de Português, jovens, pessoas que não eram especialistas. Daí lacunas terríveis que ocorreram. No outro dia descobri que faltava a palavra “robalo”! Ou “semiótica”! Ou “semiologia”!

E quanto ao chamado "acordo ortográfico"?

quinta-feira, 14 de março de 2013

.Portugal ganha mais com o Acordo Ortográfico do que o Brasil?

Lusa - 13/03/2013 - 11:25
Em Macau para participar no Festival Literário – Rota das Letras, o escritor angolano lembra que são as editoras portuguesas que querem entrar no mercado brasileiro.


O escritor angolano José Eduardo Agualusa defendeu esta quarta-feira, em Macau, que Portugal tem mais a beneficiar com o novo acordo ortográfico do que o Brasil, dado que são as editoras portuguesas que estão interessadas em entrar no mercado brasileiro.
 “As editoras brasileiras têm ainda imenso espaço para ocupar no Brasil, não estão preocupadas nem com Portugal nem com África, e quem está a entrar no Brasil são as editoras portuguesas. Portanto, o acordo ortográfico, desse ponto de vista, é sobretudo benéfico para as editoras portuguesas, não para as brasileiras, e se alguém fosse beneficiar seria Portugal”, disse o escritor.
Durante um encontro com alunos da Escola Portuguesa de Macau, no âmbito do Festival Literário – Rota das Letras, Agualusa, questionado sobre a sua posição em relação ao acordo ortográfico, disse “não ter já paciência para falar” sobre o assunto, porque ele “não é interessante”. “Defendo uma ortografia comum”, reiterou, considerando “não haver nenhuma vantagem em existir mais do que uma ortografia no mesmo espaço linguístico”.
Se houvesse, continuou, “porque não ter mais do que uma ortografia em Portugal, por exemplo? Os alentejanos têm o seu português, os lisboetas têm o seu português, os algarvios também, mas todos escrevem com a mesma ortografia”. O acordo ortográfico é importante, na perspectiva de José Eduardo Agualusa, “para países como Angola e Moçambique, que produzem poucos livros e importam mais, de Portugal e do Brasil e, de repente, há duas ortografias no mesmo território, o que confunde as pessoas, especialmente as que estão a chegar agora ao livro”.
“Nunca entendi por que houve tanta celeuma em relação ao acordo, porque é uma coisa que não interfere com a vida das pessoas”, disse, salientando que “Vasco Graça Moura errou no dramatismo, porque o que ele dizia era que o mundo ia acabar com a aplicação do acordo, era como um desastre global”. “Mas a verdade é que não conheço um único caso de diarreia, ninguém passou mal porque o acordo começou a ser aplicado”, disse.
O acordo ortográfico “tem uma relevância muito pequena”, mas “tem importância sobretudo para os países que importam livros”, rematou.

Data: 13/03/2013

 
Abraço.
AP
 

terça-feira, 14 de março de 2017

Um Acordo como deve ser!

Há opiniões e opiniões sobre o Acordo Ortográfico. As fundamentalistas (a favor ou contra) do “sim, porque sim” ou do “não, porque não”, numa escolástica repetitiva e militante, e as refletidas e com argumentos consistentes. No segundo caso, está o artigo do prof. Fernando Venâncio (contra o AO90, mas a favor de "um acordo como deve ser") que aqui partilho. 
Vale a pena lê-lo na íntegra, pois não será tempo perdido!

Concordo com vários dos pontos de vista apresentados. Outros, nem tanto…
1.      A facultatividade do uso de acento no pretérito perfeito nos verbos em –ar (como falamos e falámos), parece-me defensável, uma vez que as duas pronúncias estão instaladas (aberta no Sul, fechada no Norte). Quando muito, poderíamos propor, em nome da simplificação, a eliminação do acento. Foi esse o procedimento adotado no AO45 com "dezoito" (a par de “boina” e “comboio”), também pronunciado aberto no Sul e fechado no Norte).
2.      Embora defendida com argumentos consistentes, parece-me desnecessária a reintrodução das consoantes não pronunciadas, mesmo admitindo que a sua supressão pode vir a ter implicações na pronúncia.
3.      Quanto à remoção pura e simples do AO90 e esperar “que os anticorpos que ele gerou se diluam”, defendo uma revisão do texto, expurgando-os de inconsistências e erros, mas que não seja feita unilateralmente nem nos termos propostos pela Academia das Ciências de Lisboa.


Um Acordo como deve ser

Existe um antiacordismo militante. E existe um antiacordismo inteligente.

O antiacordismo militante vive num desassossego. Acredita em mundos perfeitos, mas acha irreparavelmente imperfeito o mundo que nos calhou. Por isso, irredutível no seu pessimismo, não perde tempo com a razão. Para ele, ponderar é já dormir com o inimigo.

O antiacordista militante jura que nunca lê nada, livro ou jornal, grafado segundo o Acordo de 90. É uma atitude supersticiosa, fetichista, mascarada de heroicidade. E quando lembramos que é também um luxo, somos olhados como provocadores.

Na sua desconfiança da racionalidade, o antiacordismo militante não se confia menos à retórica. Perante o Acordo de 90, mas perante qualquer intervenção na ortografia, ele declara-os «crime de lesa-pátria» e proclama que «a língua é identitária do povo e da sua cultura». Ortografia, Língua, Identidade: eis o curtíssimo percurso duma visão essencialista, desatinada, que acha que o Mundo está feito assim.

Não está. O turco continuou a ser a mesma exacta língua quando, em inícios do século XX, trocou a ortografia árabe pela latina. O farsi, ou persa, mantém-se um idioma da família do nosso (peçam a um iraniano que conte de 1 a 10), mesmo se redigido em caracteres árabes. O mirandês não pertence menos ao grupo ásture-leonês por servir-se da ortografia portuguesa. E o galego, ainda que escrito à espanhola, é de todas as línguas a mais próxima da nossa, e há até quem diga que são a mesma.

Da 'ortografia' à 'identidade' vai a distância de um desvario. Sim, o discurso da 'identidade' é o dos charlatães da política por esse mundo afora, apelando aos instintos mais básicos do córtex reptiliano. Só um profundo sentido da tragédia pode inspirar, em matéria ortográfica, os ais pela perda do 'património'. A militância antiacordista acharia «atentado à nossa identidade» um convénio internacional que se reunisse nesta Academia para retirar, com a devida solenidade, o acento circunflexo a "pêro". É que nele poderia estar escondida, quem sabe, a essência da alma portuguesa.

*
A primariedade do antiacordismo militante só tem paralelo na grandiloquência dos propagandistas do Acordo de 90. A acreditar neles, esse Acordo espelharia, que digo eu, garantiria a «unidade essencial da língua portuguesa».

De resto, são parcos em ideias sólidas sobre aquilo que apoiam. A uns, contenta-os o legalismo («O Acordo está em vigor, ponto final»), a outros, anima-os o fatalismo («O Acordo está em vigor, paciência»). Em momentos de lucidez, concedem que haverá umas pontinhas a amanhar, mas há-de pensar-se nisso quando tudo estiver ratificado. Não lhes passa pela cabeça que o amanho dessas pontinhas poderia, exactamente, lubrificar as ratificações. Mas pronto: também não lhes dêmos ideias.

Uma coisa anda, desde há muito, a pedir uma resposta: estaria o português precisado duma mexida ortográfica? Oh sim, urgentemente. Assim pensaram os participantes portugueses e brasileiros num magno congresso havido, em 1967, em Coimbra. Tudo em nome da 'Lusofonia'. A palavra não existia ainda, mas o sentimento já rondava, e  conduzia a actos de histeria colectiva. Acharam os congressistas que uma intervenção ortográfica não só era urgente como teria de ser drástica. E porque o problema mais insolúvel era o dos acentos nas esdrúxulas («género» / «gênero», «cómico» / «cômico»), ficou logo ali decidida, por jubilosa aclamação, a proposta de eliminação de todos os acentos nas proparoxítonas. Estavam lançadas as bases do fatídico Acordo de 86.

Tudo se passou, sempre, a esse nível: o da euforia pouco crítica, o do aconchego lusofónico, o da leviandade científica ao serviço de sonhos universalizantes. Ficaram dispensados os estudos exaustivos da realidade do idioma, mais o previsível reflexo de cada uma das medidas.

*
Mas, perguntemo-nos: ainda que não urgente, continuaria uma intervenção na ortografia a ser desejável, ou mesmo conveniente? Aí, já a questão é outra. E ela mereceria uma resposta afirmativa. Veja-se o meu discretíssimo caso pessoal.

Em 1984, publiquei no Jornal de Letras uma proposta de Reforma da ortografia do português, fundada na primazia da pronúncia. Era uma proposta radical. Previa (só uns exemplos) uma arrumação ao sector do som 's', que podemos grafar de 7 maneiras, e uma racionalização da grafia 'x', que corresponde a 5 sons diferentes. Eram medidas ousadas, mas não propriamente originais. Sabe-se que os sábios reformadores de 1911 debateram seriamente a uniformização ortográfica dos sons 'j' e 'z'. Sim, quem de nós não foi ver ao dicionário se rabugice não era com "j", ou deslize com "s"? Facto é que a minha patriótica proposta de 84 não levantou a mínima onda no lago da opinião linguística portuguesa. Dito doutro modo: fiz história, mas só eu o sei.

E porque é que fiz história? Porque, ó surpresa, o Acordo de 90 foi fundado, ele também, nesse mesmo e sadio princípio da primazia da Pronúncia sobre a Etimologia, até então primeiro e determinante critério ortográfico. Sendo assim, onde é que as coisas correram mal?

As coisas começaram a correr mal muito cedo. E começaram nessa falha, por parte dos autores do Acordo, em assumir agora a Pronúncia, e mais exactamente a Pronúncia de cada país, como critério decisivo da grafia do Português. Ficaram-se pelas águas mornas das 'pronúncias cultas', em si uma novidade meritória, mas mais insinuada do que definida.

O pior veio depois. A sã prioridade do critério sonoro morreu na praia portuguesa. Fez-se facultativo o assinalar das nossas diferenças de tipo falamos e falámos. Prescindiu-se da diferenciação gráfica dos nossos pára e para. De bem maior envergadura, e bem mais prenhe de consequências, foi o desproteger das vogais átonas anteriores a certas sequências consonânticas. Refiro-me, claro, à diferenciação gráfica de coacção e coação, ou de corrector e corretor. E, se é certo que estas perfeitas novas homografias se conservam escassas, numerosíssimos são os novos casos de dúvida, e dúvida crescente, que o desaparecimento das consoantes em jogo já começou a trazer. Acenar com os restritos casos de tipo padeiro ou de tipo inflação, ou com o fechamento em actual e mesmo em bactéria, é mera demagogia. O nosso vocalismo átono, que já era duma enervante indeterminação, vê agora os escolhos sonoros multiplicarem-se exponencialmente. Não era o momento de mexer em matéria tão fluida, tão instável, tão já de si caótica. Saiu-nos a emenda bem mais insuportável que o soneto.

Para que a tempestade fosse mesmo perfeita, não se cuidou de uma prevenção de riscos, nem depois se vislumbrou qualquer intervenção pedagógica. Essa total ausência de acompanhamento profissional das sacudidelas que um Acordo destes sempre traria, essa ausência é, em si mesma já, uma forma de pública auto-desconsideração. E se é certo que, por parte dos linguistas portugueses, o interesse pelo Acordo de 90 é, e foi sempre, decepcionante, também é verdade que a célebre "Nota Explicativa" dos autores do Acordo ficou estes 27 anos a falar sozinha. É que jamais alguém forneceu a mínima defesa técnica, científica, do Acordo. Tudo quanto se ouviu foi alarido ideológico, jogos de sombras sobre uma etérea 'unidade', numa ainda mais impalpável 'lusofonia'.
*
E agora? O cenário não está para festas. Dadas as patentes limitações do legislador em matérias linguísticas (lembrou-o hoje Nuno Pacheco no Público), resta-nos a resistência até ao fim dos nossos dias, que se desejam longos e repletos.

Não era o futuro que sonhávamos? Não era. Alguém o pediu assim? Ninguém, que se saiba. Pobres, sim, dos professores, pobres das criancinhas. O verdadeiro problema ainda são eles, os que não têm safa. São eles os que merecem, e por isso podem exigir, que abandonemos a zona de conforto, e devem poder contar com o nosso empenhamento, o nosso activismo. Onde restar ainda uma brecha de racionalidade, é obrigação nossa explorá-la.

A primeira medida inteligente poderia ser que, sim senhor, algumas propostas do Acordo de 90, não sendo transcendentais, são aceitáveis. Estão entre elas

― a eliminação do hífen em formas de haver de,

― a eliminação de acentos nas formas verbais dêem, crêem, lêem ou vêem (mas nunca em dêmos ou em fôrma),

― a inclusão no alfabeto das letras K, W e Y,

― uma boa arrumação nos usos do hífen,

― a eliminação do 'c' em Árctico e Antárctico,

Também não tenho objecção de princípio a que os nomes dos meses e das estações se iniciem por minúscula. Sem entusiasmo, mas também sem birra de maior.

E, no limite, até concordaria com a eliminação do acento gráfico em estóico, heróico ou paranóico, coisa que, vendo bem, não serve qualquer propósito unificador, e apareceu no Acordo como Pilatos no Credo.

Uma palavra sobre os "aperfeiçoamentos" que a Academia das Ciências recentemente propôs para o Acordo de 90. São, a meu ver, medidas problemáticas, ao visarem uma observância ainda mais rigorosa dos propósitos unificadores do Acordo e, sobretudo, ao pressuporem no utente português um conhecimento bastante detalhado das variantes brasileiras. Mas só um exame de listas exaustivas das consequências das medidas propostas permitirá uma apreciação ponderada.

Um antiacordismo inteligente aceita as realidades do idioma, tal como recusa o bálsamo das retóricas identitárias. Mas não se faz de desentendido, e olha com apreensão as novas e crescentes confusões que o Acordo de 1990 vem fomentando. E, mesmo divertindo-se com as criativas hipercorrecções que cada dia florescem, vê nelas a prova provada de quanto tino haverá de ter-se quando se quiser intervir na ortografia do Português europeu, essa complexa e fascinante relojoaria.

*
Vamos então já para novo Acordo? Calma. Será preciso primeiro remover o actual, e dar depois tempo a que os anticorpos que ele gerou se diluam. Uma coisa é certa: a nossa ortografia está mesmo precisada duma boa demão. Uma demão bem concebida, bem elaborada, bem conduzida. Pode ir-se pensando nisso, sem pressas, sem sobressaltos, e sobretudo sem assaltos aos viandantes.

O Brasil tem, no campo da ortografia, problemas próprios, graves e crescentes, e há-de querer, um dia, dar-lhes solução adequada. Será difícil pormo-nos todos de acordo, e o mais certo é nunca mais haver 'Acordo' nenhum.

Ao contrário de outros países colonizadores, Portugal abandonou historicamente o idioma no Brasil à sua sorte. Isto é, nunca investiu na 'protecção', no estímulo, da sua norma, sobretudo em cenário colonial. E eu acho que fez bem. Permitiu o desenvolvimento duma gramática alternativa que, em não poucos aspectos, se revela mais rica, mais flexível. E a linguística portuguesa deveria evitar dar hoje apoio, mesmo por omissão, aos sectores mais reaccionários da linguística brasileira.

A nossa História foi aquela que foi, e a «defesa da unidade essencial da língua portuguesa» é hoje tagarelice ideológica, nunca tendo sido (e, repito, ainda bem) um empenho político. Sim, Portugal nunca foi linguisticamente imperialista. Uma parvoíce? Um golpe de sabedoria? É tarde para nos preocuparmos com respostas. A «desagregação» da língua portuguesa, que cada Acordo disse querer estancar, é de há muito irreversível.

Em suma: o 'Acordo' do futuro poderá ser um acordar em não nos empatarmos mais uns aos outros. E esse, senhores e amigos, será, finalmente, um Acordo como deve ser.

Academia das Ciências de Lisboa
9 de Março de 2017

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Há marcha-atrás no Acordo Ortográfico?


NOTA PRÉVIA:
Como diz o povo, “o que nasce torto tarde ou nunca se endireita”. O AO90 nasceu torto, cresceu torto e tarda em se endireitar! Quanto a Marcelo Rebelo de Sousa, o que disse foi que “se Moçambique e Angola decidirem não ratificar o Acordo Ortográfico, isso será uma oportunidade para repensar a matéria”. O que é repensar a matéria? Aguardemos, sobretudo porque o atual presidente não tem sido consistente nas opiniões que manifestado sobre o assunto. Veja, no texto abaixo transcrito, o extrato destacado a negrito e fluorescente.

Data da notícia: 3/5/2016
Fonte: Revista Visão online.

Há marcha-atrás no Acordo Ortográfico?

Moçambique é um dos países que ainda não ratificou o Acordo Ortográfico. De visita àquele país africano, Marcelo Rebelo de Sousa reacendeu o debate sobre o tema. Mas voltar atrás é mais complicado do que parece

Alguns defendem apenas alterações ao Acordo Ortográfico assinado em 1990, mas mudar as regras de escrita da língua Portuguesa poderá implicar um novo tratado. Pelo menos, assim o entende um dos críticos que mais tem trabalhado nas questões jurídicas associadas ao documento, Ivo Barroso: “Alterar o acordo é muito difícil. Para isso teria de haver um protocolo modificado. Na prática, uma alteração é um novo acordo, que obrigaria a iniciativa do Governo, discussão na Assembleia da República e ratificação pelo Presidente da República”.

domingo, 27 de outubro de 2013

.Especialistas continuam divididos sobre Acordo Ortográfico


Os especialistas continuam divididos sobre a utilidade do novo Acordo Ortográfico, uns criticando a "inércia política" que explica a demora na aplicação, outros acreditando que esta acabará por não acontecer.
Em declarações à agência Lusa, a propósito da segunda conferência sobre o futuro da língua portuguesa, que se realiza na terça e quarta-feira, na Reitoria da Universidade de Lisboa, o linguista Malaca Casteleiro atribui à "inércia política" à demora na aplicação do Acordo Ortográfico (AO) aprovado em 1990.
"O acordo tem duas componentes, uma é linguística e a outra é política, e a componente política falhou, porque não houve vontade de levar o AO por diante, houve desinteresse, não houve empenhamento, em todos os países", critica.

sábado, 14 de julho de 2012

Novo Acordo: texto dedicado a Vasco da Graça Moura...

Transcrevo, com a devida vénia, a mensagem publicada no blogue suite de ideias em 21/2/12:


Este artigo foi escrito por Henrique Monteiro no Atual de sábado passado.

Dedicou-o a Vasco Graça Moura e a todos os opositores do Acordo Ortográfico. (...)

A minha adesão ao Acordo Ortográfico (AO) tem a ver simultaneamente com confiança e humildade. Confio na sabedoria de quem o fez (não na sua infalibidade) e sou suficientemente humilde para reconhecer que muitos aspetos que dizem respeito à etimologia e à fonética, tais como outros menos relevantes para este caso, me escapam. Além da confiança e respeito por nomes como Lindley Cintra ou António Houaiss, de que não vejo muita gente comungar, mas antes desprezar, dediquei eu próprio algum tempo ao assunto. E, uma vez que faço da escrita a minha profissão há mais de 30 anos, penso ter algo a dizer.
Rodrigues Lapa, que foi um mestre da língua portuguesa, filólogo distinto, sustinha que as mudanças de ortografia eram sempre violentas. Esta asserção é hoje inteiramente justificada pela quantidade de pessoas que apenas se opõem ao Acordo "porque sim" - sem quaisquer argumentos.
A verdade é que ninguém se conforma, depois de ter sido obrigado a pôr um "p" em ótimo, agora lhe dizerem que esse "p" (no qual nunca encontrou utilidade) não faz falta. Há quem argumente com esse pai tirano, o latim, e com a etimologia da palavra optimus. A palavra sem o "p" perderá a identidade. Alguns enxofram-se e dizem que lhes matamos o português! Mas qual português, Santo Deus (ou melhor diria Sancto Deus?). O português do assucar ou do açúcar? O de Viseu ou Vizeu?
"Philosophia", "pharmacia" ou "phleugma" também terão perdido essa identidade (para filosofia, farmácia ou fleuma)? Ora, o facto de o "phi" grego deixar de se distinguir do "f" na grafia não me parece ter provocado dano ao idioma. Mas há, insistem, o problema do fechamento das vogais. Ou seja, a mania portuguesa (que não brasileira, angolana ou moçambicana) de comer as vogais. Este argumento é o que afirma que passaremos" a dizer "aspêto" em vez de "aspéto", uma vez que a retirada do c fecha a vogal. Pode parecer um argumento poderoso, mas não é. Não dizemos "Mêlo" desde que o apelido deixou de se escrever "Mello" ("Vasconcellos" ou "Sampayo" também se dizem do mesmo modo).
Reparem - e repare o execelente poeta e tradutor, a quem o texto é dedicado - que a forma de acentuar nada ou pouco tem a ver com o modo de escrever, mas sim com o modo de ouvir. Logo ele, que nasceu na Foz do Douro, bastava-lhe andar até à Ribeira para ouvir dizer "Puârto" e muitas outras coisas que foram morrendo com a voragem unificadora fonética da televisão. No norte dizia-se "baca" sendo a palavra com "v"; e o macho da "baca" era "voi" apesar de lá estar um"b". Mais estranho: em Lisboa sempre se disse "contiúdo" apesar do "e", ao contrário de Coimbra e Porto onde se diz "contêúdo". Em Lisboa, "ôito", "dezóito", "vinte e ôito"; no Porto, "óito", "dezôito" e "vinte e óito". E sempre se escreveu da mesma forma... Aliás, segundo a professora Maria Helena da Rocha Pereira, o fechamento das vogais pré-tónicas começou em Portugal em finais do século XVII ou princípios do século XVIII - ainda não havia acordos nenhuns.
Agora, se me perguntarem por que razão em 1911 "pae" passou a "pai" e "mãi" passou a "mãe" (como até hoje se escreve) não sei dizer, do mesmo modo que me irrita o "espetador" no acordo atual. Mas a propósito daqueles que juram que "espetador" não distingue o que assiste a um espetáculo de um picador de gelo, refiro a frase: senti os pelos eriçarem-se pelos braços. E eis que toda a gente compreende onde está o quê. Ainda sobre as confusões e fechamentos e aberturas de vogais, vejam a frase: "Gosto particularmente do teu gosto" - quando a leem dizem (pelo menos os cultos, como o presidente do CCB) "gósto" e "gôsto" instintivamente. Como em "Faz força e força aquela porta" sabem que primeiro é "fôrça" e depois "fórça".
Permitam-me, ainda, referir que, durante a minha vida, "sòzinho" ou "sòmente" perderam o acento. Pois bem, nunca notei qualquer inflexão (para "suzinho" ou "sumente") no modo de pronunciar aquelas e muitas outras palavras (advérbios de modo e diminutivos) a que aconteceu o mesmo.
Há ainda os que afirmam não gostar do acordo por razões estéticas. É aceitável. Mas a ortografia, sendo uma representação, não pode agradar a todos, e menos ainda reproduzir a pluralidade (e até pessoalidade) de pronúncias e modos de dizer. Exigi-lo seria como pedir a um pintor que pintasse o céu não como ele o vê, mas como cada um de nós, pessoalmente, o vê. Tarefa impossível.
Posto isto, o AO é importante porque aproxima da fonética uma série de palavras. E fá-lo, pela primeira vez, em função de um idioma que, sendo português, é também propriedade, matriz e identidade de outros povos e de outras latitudes. Cedemos? Não sei, nem me importa. Não quero uma língua para me distinguir do Brasil. Prefiro uma que me aproxime. E quem diz Brasil, que tem 200 milhões de falantes, diz naturalmente Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Timor.
Respeito o argumento de que a língua deve evoluir por ela, sem intervenção governamental. Creio, no entanto, que deve haver uma única e determinada ortografia nos manuais escolares e nos documentos. Ainda que cada escritor (como cada editora ou jornal) prefira o seu modo de escrever (Pessoa nunca respeitou o acordo de 1911), a ortografia escolar e oficial não poder ser espontânea nem à vontade do freguês. Acrescento que, curiosamente, nenhum de nós (ou quase) lê Pessoa (nem Eça, nem Camilo, nem sequer Aquilino ou Nemésio) na ortografia que os autores escolheram, assim como, apesar de usarmos a língua de Camões, há muito que não grafamos as palavras como ele ("Armas & os barões" ou "Occidental praya"). Quero com isto dizer que um jornal, uma editora, um escritor ou um Centro Cultural de Belém que não adira ao AO, ver-se-á, a breve prazo, a braços com uma escrita anacrónica... E um dia, tal como Pessoa ou Camões, será lido com a ortografia que então estiver em vigor.
Eis porque fui um dos entusiastas, na altura como diretor do Expresso, da utilização do AO nas publicações do Grupo Impresa. Eis porque não aceito que uma lei discutida durante mais de 20 anos seja constantemente colocada em causa. Ou que os opositores do AO esqueçam sistematicamente que a forma como escrevem resulta também de um AO imposto por lei.
Não vale a pena pensarmos que cada geração tem a pureza da grafia. O que pensar de Marco Túlio Tiro que, para poder transcrever os discursos de Cícero, abreviou diversas palavras com sinalética que até hoje usamos (etc., v.g., e.g.). Talvez o mesmo que muitos pensam das abreviaturas feitas pelos jovens nos telemóveis e redes sociais. E, no entanto, é a grafia que de estar ao serviço da comunicação - não o contrário.
Acirrar ânimos, insultar adversários, fazer juramentos solenes em torno de uma simples representação do nosso idioma faz-me lembrar aquele padre tio de Brás Cubas que o genial Machado de Assis (e não por acaso cito um autor brasileiro que devia ser mais lido em Portugal) descreve assim: "Não era homem que visse a parte substancial da igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepolizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia do que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos". (E aqui, a palavra infração segue o modo como ele a escreveu ... em 1881).

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Os presidentes também erram - Pedro Santana Lopes


COMENTÁRIO:
Ou muito me engano ou as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa sobre do AO90 são apenas o pretexto para uma bicada de Pedro Santana Lopes   


Os Presidentes também erram
Todos têm direito a errar, até o Presidente, mas há umas matérias mais sensíveis.

É bastante curioso que as reações mais críticas às declarações do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa sobre o acordo ortográfico tenham vindo de responsáveis de outros países da CPLP ou mesmo do seu secretário executivo. Declarações críticas ou de moderação, como até foi o caso de responsáveis de Angola e de Moçambique. O que não se ouviu, certamente, foi uma voz que fosse dos responsáveis dos outros países que compõem a CPLP de apoio à linha política das declarações do novo Presidente português. Nem de Moçambique, nem de Angola, os tais países que ainda não ratificaram. E assume especial significado no caso de Moçambique, porque era o país que Marcelo Rebelo de Sousa estava a visitar em clima de grande alegria e satisfação. Da parte do Governo português já se sabe que houve completo distanciamento nas palavras prudentes do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

.Os falsos argumentos de direito contra o Acordo Ortográfico - Fernando Guerra (jurista)

 Antes do Formulário Ortográfico  de 1911 era assim...
 (Imagem encontrada AQUI)
 
No contexto das audições parlamentares do Grupo de Trabalho para Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, da Comissão de Educação, Ciência e Cultura da Assembleia da República Portuguesa, o jurista Fernando Guerra apresentou, em 4 de abril de 2013, o documento que aqui se disponibiliza.

Entre os argumentos contrários à nova ortografia da língua portuguesa e aos atos de direito internacional que a estabelecem, alguns afirmam-se de natureza jurídica. Passaremos a analisá-los, tanto quanto é possível entendê-los como argumentos jurídicos. Explicarei: as afirmações que pretendem considerar a nova ortografia juridicamente inválida porque atentaria contra «a marca identitária do povo», ou porque seria «indiferente aos argumentos da diversidade, da etimologia, da sonoridade e da estética da língua reiteradamente brandidos pelos seus opositores», podem servir para alindar poemas a enviar a jogos florais de aldeia, mas dificilmente serão consideradas argumentos jurídicos. O mesmo se dirá da ideia criativa segundo a qual a ortografia não poder ser modificada porque tal seria rever a Constituição da República, revisão impossível pois que atentaria contra os limites materiais impostos ao legislador constitucional, nomeadamente «o princípio da identidade nacional e cultural e o núcleo essencial de vários direitos, liberdade e garantias». Estranhas, peregrinas teorias de juristas com alma de poetas, só idênticas às de um conhecido poeta, jurista de formação, que, no meio da artilharia de petardos que diariamente desfere contra a nova ortografia, apontou ontem como atentado à memória do padre António Vieira a edição das obras do pensador que aplica a nova ortografia. Por que não aplicar a ortografia do tempo em que o Padre António Vieira escreveu? E os sonetos de Shakespeare, traduzidos para português pelo conhecido poeta, seguem a norma ortográfica do século XVI? E o Hino Nacional, deverá o poema sempre ser transcrito com recurso à ortografia de 1910 para que não se ofenda a identidade nacional? Será violar a Constituição reproduzir o artigo 112.° da lei fundamental escrevendo “Atos normativos” em vez de “Actos normativos”? Pergunte-se ao Tribunal Constitucional. Quanto a violações da Constituição, temos pano para mangas: peça-se urgência na resposta; que seja dada antes do termo do período de transição previsto até à plena aplicação do AO.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

.ABL propõe mudanças no Novo Acordo

Academia Brasileira de Letras propõe mudanças no Acordo Ortográfico

As alterações propostas pela ABL, divulgadas pela Agência Brasil, incluem mudanças na regra do hífen.

A Academia Brasileira de Letras (ABL) já tem propostas de mudanças no Novo Acordo Ortográfico, mesmo antes de ele estar completamente implantado nos países de língua portuguesa, informou hoje a Agência Brasil.
O académico Evanildo Bechara afirmou que as alterações são, no entanto, “pequenas” face à abrangência do acordo.
As alterações propostas pela ABL, divulgadas pela Agência Brasil, incluem mudanças na regra do hífen, como a sua manutenção em palavras compostas, cujo primeiro termo termine em vogal e o segundo comece em ‘erre’ ou ‘esse’ nos casos em que o segundo termo seja nome próprio (anti-Saddam, por exemplo). Esta regra é a que vigorava em Portugal anteriormente ao Acordo Ortográfico de 1990.
Outra proposta da academia é incluir no acordo a regra dos porquês, para uniformizá-la. No Brasil, escreve-se “porque” quando o termo é uma conjunção de causa ou explicação, e “por que”, separado, nas perguntas. Em Portugal, o termo pode ser grafado junto nas perguntas.
“Isso viria muito a facilitar a vida de todo mundo. Vamos discutir esse caso, para ver, porque o acordo não é apenas a unificação [da ortografia], mas também a simplificação”, afirmou Bechara, que realçou que a mudança ainda está a ser discutida.
O académico defendeu também a eliminação das excepções às regras. Segundo ele, essas mudanças só devem ser discutidas entre os países quando o Novo Acordo estiver completamente em vigor.

Data: 22/12/2013                                                                                Fonte:
http://www.publico.pt/cultura/noticia/academia-brasileira-de-letras-propoe-mudancas-no-acordo-ortografico-1578378

Comentários:
1. "como a sua manutenção (do hífen) em palavras compostas, cujo primeiro termo termine em vogal e o segundo comece em ‘erre’ ou ‘esse’ nos casos em que o segundo termo seja nome próprio (anti-Saddam, por exemplo)". Muito estranha esta proposta, uma vez que uma das regras, que está nos critérios de aplicação do AO, diz isto: O hífen é usado (...) quando (…) a palavra a que se juntam é um estrangeirismo, um nome próprio ou uma sigla: anti-apartheid, anti-Europa, mini-GPS.” Ou seja, a suposta proposta da ABL já está em vigor.
2. O parágrafo onde é referida "a regra dos porquês" está confuso. Deveria  dizer-se "a regra do uso de porque e por que". Se quiser ver a mensagem deste blogue que trata o assunto, clique AQUI.
3. Concordo que é urgente eliminar as exceções, sobretudo as da hifenização das locuções e dos acentos desambiguadores.
 
Abraço.
AP

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Ação em tribunal contra aplicação do Acordo Ortográfico!

COMENTÁRIO:
A grande vantagem desta iniciativa é esclarecer, de uma vez por todas, se a aplicação do documento é ou não ilegal/inconstitucional. Estranho é que só agora se tenha avançado com a ação judicial, uma vez que os fundamentos que lhe estão subjacentes não são novos.

A Associação Nacional de Professores de Português (Anproport) e um grupo de cidadãos apresentaram hoje, no Supremo Tribunal Administrativo, uma ação judicial popular para anular a norma que aplica o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).

A ação, segundo um comunicado hoje divulgado, pretende impugnar a resolução do Conselho de Ministros 8/2011, do Governo de José Sócrates, que aplica o AO90 ao Governo e organismos dependentes (escolas públicas por exemplo) e à Função Pública, a partir do início de 2012.
A resolução contém “ilegalidades flagrantes” e o AO90 “não está em vigor juridicamente” e é “inconstitucional a vários títulos”, diz-se no comunicado.

sábado, 16 de maio de 2015

Novo Acordo Ortográfico altera mais o português do Brasil?

Fonte: http://www.revistaport.com
“O português de Portugal vai deixar de usar o que chamamos de consoantes mudas. Porém, acho que as duas mudanças mais significativas para o português brasileiro representam perda maior, porque são ligadas à maneira com que os brasileiros pronunciam as palavras. É diferente do caso das consoantes mudas que não são pronunciadas”, afirmou Fiorin à Lusa.
O doutor em linguística referiu-se ao fim do uso do trema, que indicava quando a letra u deveria ser pronunciada após as letras q e g, e a queda do acento da base aberta dos ditongos ei e oi em palavras paroxítonas, como em ideia (que, sem o novo acordo, no Brasil seria grafada como idéia).
Fiorin realçou, no entanto, que as análises sobre o acordo não devem ser centradas em quem ganha mais ou quem perde mais, mas sim nos benefícios da unificação.
“Unificar a ortografia significa mostrar a radical vontade de exibir para o mundo a unidade que deve existir entre os países lusófonos. Qualquer consideração entre quem ganha e quem perde está fora de contexto”, disse.
Segundo o professor, o acordo já “está completamente implantado no Brasil” porque os jornais, revistas e livros já utilizam a nova ortografia e “não havia nenhuma necessidade” de se prorrogar o início da obrigatoriedade de 2013, como antes era previsto, para 2016, quando irá começar oficialmente.
As principais diferenças da antiga ortografia para a do novo acordo destacadas por brasileiros ouvidos pela Lusa são a mudança no uso do hífen e nas acentuações dos ditongos.
O Acordo Ortográfico foi ratificado pela maioria dos países lusófonos, à exceção de Angola e Moçambique. Em Angola ainda nem foi aprovado pelo Governo e em Moçambique aguarda a ratificação pelo parlamento.
Portugal e Brasil estabeleceram moratórias para a aplicação do acordo, estando prevista a entrada em vigor efetiva a 13 de maio e a 1 de janeiro próximos, respetivamente.
 
Angola ainda não deu “sim”
Em setembro passado, questionado pela Lusa, o ministro da Educação angolano, Pinda Simão, garantia que o país “está a trabalhar” sobre o novo acordo ortográfico da língua portuguesa e que no “devido momento” será tomada uma decisão, desconhecendo-se qualquer desenvolvimento neste processo desde então.
O português é a língua oficial em Angola, mas o país conta com seis principais línguas nacionais, muitas das quais acabaram por incorporar alguns conceitos e palavras, face à longa presença colonial portuguesa.
Num recente congresso sobre a língua portuguesa, realizado em Luanda, a ministra da Cultura de Angola, Rosa Cruz e Silva, afirmou que as línguas nacionais angolanas “com que convive” há quinhentos anos deram ao português a “pujança atual”.
“A língua portuguesa em Angola fez uma trajetória de afirmação do património partilhado, na medida em que desde esses primórdios até ao período mais crítico da sua história os angolanos transformaram-na na principal arma da sua luta contra o sistema opressor. E, por essa via, tornaram-na mais adequada aos contextos culturais do país. Se quisermos, tornaram-na [a língua portuguesa] mais bela”, reconheceu a ministra.
Apesar disso, Rosa Cruz e Silva afirma que devem ser colocadas “ao mesmo nível” as línguas nacionais e a língua oficial, tendo em conta que a “diversidade linguista do país constitui a sua grande riqueza”.

domingo, 4 de maio de 2014

Voluntário em S. Tomé 12: dar ou não dar doces às crianças...

Ponta Baleia, junto ao porto de embarque para o Ilhéu das Rolas, onde poderá ter crianças à espera...

Ao chegar a S. Tomé, invariavelmente, o turista é cercado por “bandos” de crianças com o discurso na ponta da língua: “Doce, doce, doce!” Não obtendo o doce pretendido, pedem lápis, borrachas ou cadernos…
Encontrei em fóruns sobre viagens o conselho de levar, na bagagem para S. Tomé, rebuçados, lápis, canetas, cadernos, t-shirts, etc., porque "os meninos são muito necessitados" e vão dar em troca sorrisos de derreter o coração. Há agências de viagens que dão o mesmo conselho…
Esta semana, a revista Visão traz um belíssimo artigo sobre a ilha do Príncipe. Transcrevo alguns extratos sobre esta prática de dar coisas às crianças.

TURISMO RESPONSÁVEL
Não se compram sorrisos com doces
O Príncipe pode ser ainda um pedaço intocado de paraíso, mas só assim poderá permanecer se os turistas que o visitarem tiverem uma atitude responsável perante a natureza e as suas gentes. Até porque, muitas vezes, na ânsia de quererem o bem, os visitantes acabam por trazer e fazer o mal.
É o que sucede quando as pessoas oferecem doces às crianças, só na ânsia de as verem sorrir, e pensando que lhes estão a proporcionar momentos de felicidade”, diz Diana Relego, 31 anos, coordenadora de marketing da HBD. “A verdade é que, com esse comportamento, apenas estão a habituá-las a mendigar, como se isso fosse a resolução dos seus problemas. Ainda por cima, com a agravante, no caso dos doces, de o fazerem num país sem oferta de saúde dentária.” (…)
É normal que as pessoas tenham o impulso de ajudar. Mas se tiverem algo para dar, é melhor que o entreguem às instituições que trabalham no território.” (…)
As crianças sorriem por simpatia natural, não à espera de recompensa. É bom que assim permaneçam.

A posição dos Leigos para o Desenvolvimento (com quem estive alojado e a trabalhar na minha missão de voluntariado) é coincidente com que acabo de transcrever: NÃO AO ESTÍMULO DA MÃO ESTENDIDA!
Quando cheguei, no primeiro dia em Malanza e Porto Alegre, as crianças chamavam-me branco e pediam-me doces. Respondia-lhes que o meu nome era António, era o professor de Francês e que não tinha nem comia doces, por fazerem mal aos dentes. Nos restantes dias da missão, todos me chamavam António (alguns diziam-me "bonjour"!), vinham dar-me a mão e acompanhavam-me em parte do caminho. Quanto aos sorrisos, dei e recebi muitos todos os dias… isentos de açúcar!
Pode dar-se material escolar, mas acabará por estragar-se rapidamente sem cumprir a sua missão de apoio à aprendizagem. Como é sugerido no artigo da Visão, quem tiver coisas para dar deve contactar uma das instituições instaladas em S. Tomé. São cerca de 200 ONG ao dispor. 
Os Leigos para o Desenvolvimento têm duas equipas (uma na capital e a outra no Sul) e trabalham diretamente com as escolas. Se quer ajudar as crianças de S. Tomé, eles saberão aconselhá-lo. Pode escrever à Rita Marques: ldritamarques@gmail.com. Conheço-a e sei que não deixará de lhe responder.

Abraço.
AP
P.s.: Quem vai entregar a sua declaração de IRS este mês também pode ajudar os Leigos a ajudar. Como?
Preencheendo o Campo 901 do quadro 9 do anexo H com o número fiscal dos Leigos para o Desenvolvimento: CONTRIBUINTE NÚMERO – 501 917 705, apoiará os Leigos com 0,5% do seu imposto.
Destinando 0,5% do seu IRS para os Leigos para o Desenvolvimento não tem qualquer perda de benefícios (não paga mais, não recebe menos).